Há alguns anos iniciei uma jornada de abandono das crenças religiosas rumo a um ceticismo aberto, racional e esclarecido. No meio do caminho topei um grande obstáculo intelectual: como entender e aceitar a morte numa perspectiva cética?
Quem primeiro veio em meu auxílio foi Nietzsche, me dizendo que o ateu deve aproveitar a vida ao máximo, pois não há outra a ser vivida. Bom conselho, mas insuficiente para responder a pergunta que me fazia, e que até hoje ouço daqueles que tentam me demover ou que simplesmente não entendem. Afinal, que sentido há na vida se um dia ela acaba e nada resta? Depois de alguma (não, de muita) reflexão, encontrei um caminho através da teoria da evolução e da teoria dos sistemas.
A Evolução me diz que a morte não é um fim, mas um meio, uma ferramenta da Seleção Natural. Sem a morte dos indivíduos não é possível à espécie se adaptar ao meio. Mas para aceitá-la é preciso abandonar completamente o individualismo e enxergar o ser como um elemento de um sistema maior. Aí entra a segunda teoria.
Um sistema é um conjunto de elementos que se unem com um objetivo comum. Acontece que um sistema pode ser – e na verdade quase sempre é – formado por subsistemas, e é ele próprio parte de um sistema maior. Por esta óptica fica difícil caracterizar o que é um indivíduo. Somos compostos de sistemas orgânicos, órgãos, tecidos, células, organelas, moléculas, átomos e partículas sub-atômicas, e nos agrupamos em populações, comunidades, ecossistemas, planetas, sistemas solares, galáxias e universos. Níveis de organização hierarquicamente organizados se interpenetrando. Será pura convenção considerar o corpo como o nível básico, referencial, a que se chama “indivíduo”? Talvez sim, mas que identidade há nele? Não se pode dizer que a alma é a identidade, pois sua existência já foi excluída por princípio – a resposta precisa estar na matéria. Olhando de perto, percebemos que nossa matéria é constantemente destruída e reconstruída, recebendo matéria do ambiente e a ele devolvendo, e em alguns anos de vida praticamente nenhum átomo de um indivíduo estava nele na hora de seu nascimento, então quem somos nós?
Aqui arrisco, a título de hipótese, uma definição: “indivíduo é um sistema formado por elementos que se agrupam em um dado momento, criando uma estrutura capaz de se tornar consciente, e assim se manter mesmo que os elementos sejam paulatinamente trocados por similares”. A morte seria então um momento em que a estrutura de organização destes elementos entra em colapso.
Pode-se reconhecer um punhado de falhas nesta definição, mas a mim ele parece suficiente pra solucionar meu enigma. Agora a morte não tira o sentido da vida. Ela é simplesmente um momento em que os meus átomos deixam de formar um sistema para se unirem a outros. A verdadeira vida não reside mais em mim, mas em todo o universo, e a mim ela sobreviverá. Agora eu ganho vidas passadas e vidas pós-morte, antigas prerrogativas dos crentes; minha existência passa a ter um sentido maior: de colaborar, enquanto existir, para a evolução de meu grupo e de meu mundo. Estou salvo!
Ainda há um outro elemento a discutir, algo que não é matéria, e que pode ser a chave para encontrar o sentido da existência: o conhecimento. Mas deixemos isso para outra ocasião.
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sábado, 24 de outubro de 2009
sábado, 12 de setembro de 2009
O caminho da ciência
Preciso confessar, não sei bem o que responder quando me perguntam sobre minha religião. Não me encaixo nas rotulagens tradicionais, sendo chamado de ateu pelos crentes e de agnóstico pelos ateus. Então vou aqui abandonar as classificações e tentar entender minhas crenças.
Para começar, acredito na ciência. Alguém dirá que esta é minha religião, mas nada pode ser mais errado. A ciência tem algo de fundamentalmente diferente de todos os outros tipos de crença, religiões ou pensamentos esotéricos. Ela jamais pretende ter respostas definitivas para coisa alguma, suas conclusões são sempre provisórias e sujeitas a contestação e é justamente aí que reside sua beleza. Cada nova descoberta ou teoria parte dos pressupostos estabelecidos pelas descobertas e teorias anteriores e ao mesmo tempo serve de base para as seguintes. Assim o conhecimento evolui, se aproximando cada vez mais da realidade, ainda que nunca a alcance completamente.
Pode ser que as religiões estejam certas, talvez as respostas dadas pela cabala, pelas runas, tarô, búzios ou astrologia sejam mais verdadeiras do que as teorias científicas, mas se não forem, não há como descobrir. A ciência pode não dar as melhores respostas, mas ao menos não fica amarrada a respostas erradas. Pode não ser a melhor forma de se alcançar a verdade, mas com certeza é a forma mais segura para não se afastar dela.
E ainda tem mais, historicamente muitas explicações sobrenaturais foram substituídas por novas descobertas científicas, deixando claro a mim que os deuses encolhem conforme a ciência cresce.
Agora sei no que acredito. Acredito que qualquer verdade revelada a algum estafeta divino ou oculta em sinais místicos tem alguma probabilidade de ser boa, mas prefiro apostar as minhas fichas naquilo que minha razão consegue entender, explicar e acompanhar.
Para começar, acredito na ciência. Alguém dirá que esta é minha religião, mas nada pode ser mais errado. A ciência tem algo de fundamentalmente diferente de todos os outros tipos de crença, religiões ou pensamentos esotéricos. Ela jamais pretende ter respostas definitivas para coisa alguma, suas conclusões são sempre provisórias e sujeitas a contestação e é justamente aí que reside sua beleza. Cada nova descoberta ou teoria parte dos pressupostos estabelecidos pelas descobertas e teorias anteriores e ao mesmo tempo serve de base para as seguintes. Assim o conhecimento evolui, se aproximando cada vez mais da realidade, ainda que nunca a alcance completamente.
Pode ser que as religiões estejam certas, talvez as respostas dadas pela cabala, pelas runas, tarô, búzios ou astrologia sejam mais verdadeiras do que as teorias científicas, mas se não forem, não há como descobrir. A ciência pode não dar as melhores respostas, mas ao menos não fica amarrada a respostas erradas. Pode não ser a melhor forma de se alcançar a verdade, mas com certeza é a forma mais segura para não se afastar dela.
E ainda tem mais, historicamente muitas explicações sobrenaturais foram substituídas por novas descobertas científicas, deixando claro a mim que os deuses encolhem conforme a ciência cresce.
Agora sei no que acredito. Acredito que qualquer verdade revelada a algum estafeta divino ou oculta em sinais místicos tem alguma probabilidade de ser boa, mas prefiro apostar as minhas fichas naquilo que minha razão consegue entender, explicar e acompanhar.
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