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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Arte corporal Nerd

Acabo de fazer mais uma tatuagem. Olhe bem pra ela e antes de continuar a ler o texto diga o que acha que ela representa.


Então, parece com o que? Uma rachadura? Um rio? Varizes, raios, fungos, o Venom? Pois eu digo que pode ser qualquer uma dessas coisas, ou muitas outras parecidas. Na verdade trata-se de um fractal, feito a partir desta figura original.

Em palavras simples, um fractal é uma figura geométrica que pode ser dividida em partes cada vez menores, indefinidamente, de modo que cada parte é uma réplica da figura toda. Uma forma de criar fractais é através de algoritmos matemáticos iterativos (no meu caso, pelo conjunto de Mandelbrot).

Mas o que me fascina nos fractais é justamente o fato de estarem presentes em várias objetos e fenômenos que encontramos no nosso dia-a-dia, como árvores, praias, raios e alienígenas amorfos simbiontes, e ao mesmo tempo poderem ser matematicamente modelados. Para mim, representam a fronteira entre o mundo real e as representações que conseguimos fazer dele através daquilo que chamamos de Ciência. Por isso decidi imprimir um deles na minha pele, para representar um dos aspectos mais importantes da minha vida, o amor pela Ciência e a crença de que ela é a maneira mais segura de adquirir conhecimento.

Coisa bizarra, isso de tatuagem científica? Eu digo que é coisa de quem busca dar significado a tudo o que faz. É claro que significado sobrenatural não serve, precisa ser buscado na razão, refletido, estudado. Longe de mim criticar ou recriminar quem tatua em si uma imagem qualquer, só porque acha bonita, afinal a estética também é fundamental na nossa vida. Ou quem escolhe figuras por algum motivo esotérico, pois cada um tem suas crenças. Há até quem fique no meio do caminho, tatuando símbolos místicos mas pouco se importando com o que representa, só pela beleza mesmo, que mal há?

Mas eu não sou assim. Escolhi outros caminhos, da Razão, da Ciência, do ceticismo, e por eles procuro seguir. Tem gente que acha esquisito, tem gente que acha tonto, tem muita gente que não entende. Dizem que é coisa de Nerd. Bom... é mesmo.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Analfabetos científicos

Século 21 a.C. Os babilônios já sabiam que a posição das estrelas em determinado horário varia de forma cíclica ao longo do ano, uma consequência do movimento de translação da terra. Resolvem então dividir a região equatorial do céu em 12 partes iguais, dar a cada uma o nome de um ser mitológico e chamar esse arranjo todo de Zodíaco. Determinam que a posição do sol no dia do nascimento de cada pessoa tem uma forte influência sobre sua personalidade e comportamento.

Século 2 a.C. O filósofo Hiparco descobre que esse ciclo anual não é constante. Na verdade há um outro ciclo, contrário ao primeiro, que faz com que a cada ano, no mesmo dia, a posição das estrelas em relação ao sol também varie. Calcula que esse ciclo é de aproximadamente 26.000 anos, portando a cada 2170 anos o sol “anda” uma faixa zodiacal para trás (hoje se sabe que o ciclo é de 25.770 anos). Esse fenômeno é consequência de um movimento da terra chamado PRECESSÃO DOS EQUINÓCIOS e há bastante informação sobre ele na Internet. Basta googlear.

Século 21 d.C. O astrônomo estadunidense Park Kundle resolve revelar ao mundo que os signos estão errados graças ao desconhecimento do movimento de precessão por parte dos babilônios.

Olhem que interessante, um fato que já é conhecido há mais de dois mil anos. Que até os atuais astrólogos e místicos conhecem, tanto que a partir dele criaram as “eras astrológicas”. Que qualquer um que conheça algum fundamento de astronomia sabe. Que constantemente vira tema de discussão entre astrólogos, astrônomos e seus simpatizantes, de repente ganha a mídia e vira assunto polêmico, revolucionário.

Parece ter alguma coisa errada nessa história? Tem sim, aliás duas. A primeira é o absoluto analfabetismo científico que assola a humanidade. Existem os analfabetos formais, que não sabem desenhar o próprio nome; os analfabetos funcionais que não conseguem interpretar ou produzir textos elementares; os analfabetos políticos de Brecht e os meus analfabetos científicos. São pessoas que não conhecem os fundamentos da ciência, como ela funciona, para que serve, quais seus métodos, princípios e limitações. Não sabem diferenciar o conhecimento gerado pela ciência daquele fruto de outras árvores, não entendem as peculiaridades de cada um. E o pior de tudo é que são a maioria esmagadora da população.

O segundo problema é a credibilidade dos meios de comunicação de massa para esses analfabetos. Os astrônomos de Minessota fizeram a declaração “bombástica” numa entrevista à revista Time, uma publicação não especializada em ciência, escrita por jornalistas e não por cientistas. Algo como as nossas Veja e Época. Parece que os jornalistas sofrem também de um alto grau de analfabetismo científico, ou então o tom estrondoso dado a um assunto já muito batido foi má fé mesmo, barulho para vender revista. Acontece que os analfabetos leitores têem esses meios como sua única fonte de informação, e transformam tudo que há neles em verdade absoluta. E agora a Internet está cheia de páginas dizendo que Kundle et al. fizeram uma grande descoberta.

sábado, 12 de setembro de 2009

O caminho da ciência

Preciso confessar, não sei bem o que responder quando me perguntam sobre minha religião. Não me encaixo nas rotulagens tradicionais, sendo chamado de ateu pelos crentes e de agnóstico pelos ateus. Então vou aqui abandonar as classificações e tentar entender minhas crenças.
Para começar, acredito na ciência. Alguém dirá que esta é minha religião, mas nada pode ser mais errado. A ciência tem algo de fundamentalmente diferente de todos os outros tipos de crença, religiões ou pensamentos esotéricos. Ela jamais pretende ter respostas definitivas para coisa alguma, suas conclusões são sempre provisórias e sujeitas a contestação e é justamente aí que reside sua beleza. Cada nova descoberta ou teoria parte dos pressupostos estabelecidos pelas descobertas e teorias anteriores e ao mesmo tempo serve de base para as seguintes. Assim o conhecimento evolui, se aproximando cada vez mais da realidade, ainda que nunca a alcance completamente.
Pode ser que as religiões estejam certas, talvez as respostas dadas pela cabala, pelas runas, tarô, búzios ou astrologia sejam mais verdadeiras do que as teorias científicas, mas se não forem, não há como descobrir. A ciência pode não dar as melhores respostas, mas ao menos não fica amarrada a respostas erradas. Pode não ser a melhor forma de se alcançar a verdade, mas com certeza é a forma mais segura para não se afastar dela.
E ainda tem mais, historicamente muitas explicações sobrenaturais foram substituídas por novas descobertas científicas, deixando claro a mim que os deuses encolhem conforme a ciência cresce.
Agora sei no que acredito. Acredito que qualquer verdade revelada a algum estafeta divino ou oculta em sinais místicos tem alguma probabilidade de ser boa, mas prefiro apostar as minhas fichas naquilo que minha razão consegue entender, explicar e acompanhar.