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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Meu Beagle

Malas prontas. Amanhã cedo estarei embarcando rumo à minha Meca particular. O lugar onde tudo começou, onde a mais fantástica e revolucionária teoria biológica foi germinada. Há 176 anos atracava no Arquipélago de Galápagos o navio HMS Beagle, e depois disso o mundo nunca mais foi o mesmo.

A partir de hoje esse blog se tornará um diário de viagem. Refletir sobre a Evolução e sobre todos seus desdobramentos, respirando o mesmo ar do mestre Charles será uma oportunidade única (aliás, única não, porque espero de coração voltar outras vezes) e aqui ficará registrada cada impressão, cada pensamento, além de muitas imagens desse lugar maravilhoso.

Espero contar com sua companhia.

quarta-feira, 9 de março de 2011

E vos dou a vida eterna

Dia desses a bomba de gasolina do meu carro quebrou. O mecânico tirou, jogou fora, instalou uma nova e o carro estava perfeito de novo. Qual a função da bomba de gasolina? Transportar o líquido do tanque para o motor. Não é, basicamente, a mesma coisa que faz nosso coração?

Fiquei aqui pensando, e se dispuséssemos de um estoque de “peças sobressalentes” do nosso corpo, ou algum método para construí-las? Poderíamos, a cada enfermidade, simplesmente trocar células, tecidos ou órgãos com problemas por outros novos e sair andando como o meu carro, belos e saudáveis. Ficção científica? Hoje sim, mas a tecnologia avança a passos largos. Órgãos artificiais, células tronco, cirurgias menos invasivas e cruentas, acho que é questão de tempo até alcançarmos estas possibilidades. E então, seremos imortais.

Claro, talvez a morte ainda nos pregue peças. Acidentes, assassinatos e doenças infecciosas podem levar alguns de nós, mas teremos vencido aquela que talvez seja a pior e mais nefasta de todas as doenças: a velhice. Falando assim, dou a impressão que envelhecer e morrer são coisas ruins. Bem, não são. A Morte é nossa amiga, é ela quem garante o equilíbrio populacional, além de ser o motor da evolução. Pode parecer belo e romântico viver para sempre, mas quais serão as conseqüências?

Para começar, superpopulação – a mãe de todos os desastres ecológicos. Para controlá-la, serão necessárias medidas drásticas de controle de natalidade. Acabo de ler no jornal que até a China está revendo sua política de filho único, frente ao preocupante envelhecimento da população. Nessa esteira, as relações familiares precisarão ser repensadas, já que a maternidade/paternidade perderá quase toda a importância na sociedade.

E quanto aos já combalidos sistemas previdenciários? Homens eternos não poderão jamais se aposentar, porque não haverá jovens que os sustentem. Todos terão que produzir, mas para isso as relações do homem com o trabalho precisaram ser revistas. Não haverá quem agüente passar a maior parte do tempo se dedicando exclusivamente à produção de capital, esperando os dias de descanso que nunca virão.

Nem me arrisco a pensar nos desdobramentos mais filosóficos deste cenário: nossa relação com a morte, a função das religiões, os conflitos de gerações. Deverá ser uma sociedade toda nova, diferente da atual nas suas mais profundas essências. Mas um desafio para o homo sapiens e sua fantástica capacidade de se adaptar.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Pedro, Paulo e as abelhas.

- Ô Pedro, você viu minha cueca verde, aquela box?

- Aquela que você ganhou da Belinha?

- Melhor não falar da Belinha.

- Poxa, Paulo, achei que você já tinha superado essa história.

- Superei, mas não esqueci. Aliás, vai demorar pra eu esquecer que meu irmão gêmeo se fez passar por mim pra pegar minha namorada.

- Ah, ela nem era sua namorada.

- Mas poderia vir a ser.

- E tem mais, a gente já se passou um pelo outro tantas vezes, não sei porque a crise agora.

- Passamos um pelo outro de comum acordo.

- Nem sempre. Quantas vezes eu te tirei de fria fingindo ser você, e quantas vezes você fez a mesma coisa? E se você relaxar e pensar racionalmente, com a Belinha foi exatamente isso que eu fiz, afinal você é que tinha marcado encontro com ela e furou. Aí calhou de eu estar por perto e resolvi limpar sua barra. O azar foi que ela descobriu depois.

- É, pode ser. Melhor esquecer mesmo, isso é passado. Mas ainda quero saber da minha cueca.

- Você usou ontem, deve estar pra lavar.

- Não usei não, aliás faz bastante tempo que não uso.

- Hmm, então não sei, devo ter confundido.

- Confundido o que? Ei, pera aí, você usou minha cueca?

- Pode ser que eu tenha usado, mas achei que era você.

- Ah, não me venha com essa agora. Uma coisa é você fazer os outros pensarem que você sou eu, uma coisa é você fazer minha namorada...

- Quem?

- Tá, minha provável-futura-namorada pensar que você sou eu, uma coisa é você fazer a mamãe pensar que você sou eu...

- Haha, aquela foi engraçada, e ela que sempre diz que é a única pessoa no mundo que consegue diferenciar nós dois.

- Huahuahua, verdade, foi engraçado. Mas enfim, esperar que eu acredite que você me confunde com você mesmo é demais!

- Porque? Afinal, será que nós somos mesmo duas pessoas?

- Tá me zuando?

- Claro que não. Olha só, o que caracteriza um indivíduo, o que faz dele um ser único? É exatamente a forma única como o conjunto de genes da população se arranja nele. São tantos genes, em tantos loci cromossômicos, tantas combinações diferentes que fica quase impossível a mesma combinação acontecer duas vezes, ainda mais considerando as eventuais mutações, translocações, crossing-overs, etc. É justamente essa variedade que serve de material para a Seleção Natural, graças a ela pode existir evolução. Ora, se a natureza não admite que duas pessoas tenham o mesmo código genético, então o que são os gêmeos senão UMA SÓ PESSOA?

- É, tá me zuando.

- Não tô não. Pensa bem, em que momento surge um novo indivíduo? Esqueça os conceitos morais, religiosos, filosóficos ou outros que os valham e pense na biologia pura. Se o que caracteriza o indivíduo é o código genético, então ele começa a existir no momento em que aparece a primeira célula com um código genético único, o zigoto. Essa célula pode se dividir depois em centenas, milhões, bilhões de outras células, mas todas vão carregar a mesma combinação de genes, e isso dá a elas a propriedade de pertencerem ao mesmo indivíduo. E como a gente fica nessa história? Bom, um dia nós dois fomos um único zigoto, um único indivíduo – único porque era um só e único porque era diferente de todos os outros – que depois de dividiu como qualquer outro zigoto se divide. Aí por uma falha de processo a divisão foi longe demais e as duas partes se desgrudaram, mas já vimos que os processos de divisão celular não importam na identificação de um ser, o que vale é a informação que as células filhas carregam.

- Tá bom, vou entrar na sua brincadeira. Então o que você me fala da reprodução assexuada? Em uma colônia de bactérias ou um viveiro cheio de plantas propagadas por estaquia, cada bactéria e cada planta têm o mesmo código genético. Ou sua teoria só vale para animais, ou eu não sei o que esses conjuntos são.

- Superorganismos, como as abelhas de Tautz. Ou não, talvez meu argumento só funcione mesmo com espécies sexuadas. Mas ainda vale, porque é de nós que estamos falando, e nós somos sexuados - apesar de você estar meio devagar ultimamente.

- Quer fazer o favor de não tripudiar da minha má fase?

- Ok, continuando. O fato é que se eu coloco uma luva, a luva está em mim. Não importa se está na mão esquerda ou na direita, de qualquer jeito sou EU que estou vestindo. Ainda que somente as células de uma mão sejam protegidas com as respectivas moléculas de DNA dentro delas, a informação genética da outra mão e de cada uma de todas as outras partes do corpo estará enluvada. Analogamente, não faz diferença se o Pedro ou o Paulo vestem uma cueca, é o mesmo arranjo genético que está sendo beneficiado.

- Como você viaja! Era mais fácil ter pedido a cueca, eu emprestava na boa.

- A Belinha também?

- Não enche.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Meu novo hobby

Coisa de nerd ficar arrumando hobby né? Pois durante o feriado de Ano Novo descobri uma nova diversão: a ornitologia fotográfica. Na verdade eu já vinha pensando em lidar com isso há algum tempo e tinha até alguns livros sobre o assunto guardados na estantes. Como o lugar tinha pássaros lindos e as fotos ficaram ótimas, resolvi fazer a identificação. Como obra de principiante, aí vão algumas espécies bastante comuns da região Sudeste.


Socó-dorminhoco (Nycticorax nycticorax). Ordem Ciconiformes. Família Ardeidae

Lavadeira-mascarada ou Lavadeira-de-nossa-senhora (Fluvicola nengeta). Ordem Passeriforme. Subordem Tyranni [=Suboscines]. Familia Tyrannidae. Subfamilia Tyranninae.

Coruja-buraqueira ou coruja-do-campo (Speotyto cunicularia). Ordem Strigiformes. Família Strigidae.


Canário-da-terra (Sicalis flaveola). Ordem Passeriformes. Subordem Passari [=Oscines]. Família Fringillidae. Subfamília Emberizinae. Tribo Thraupini.

Mais fotos aqui.

sábado, 3 de outubro de 2009

Da costela de Eva

Dia desses recebi por e-mail a seguinte piada:
O que disse Deus depois de criar o homem? Tenho que ser capaz de fazer coisa melhor.
E o que disse Deus depois de criar a mulher? A prática traz a perfeição.

Variações da anedota mais antiga, onde Deus fez primeiro o rascunho e depois a obra prima. Adorei e concordo quase totalmente. A mim não resta dúvida de que as mulheres são superiores aos homens em qualquer quesito: mais belas, mais sábias, mais eficientes, mais requintadas, mais complexas.
A única falha no argumento humorístico é que a fábula bíblica não coaduna com a observação científica. Na verdade o homem - ou para ser mais exato, o macho - deriva da fêmea, e não o contrário. No início de nossa vida fetal, somos todos anatomicamente femininos. Posteriormente, naqueles geneticamente marcados pelo escudo de marte, uma descarga de testosterona transforma os órgãos femininos em masculinos. E como a embriogênese recria a filogênese, espera-se que os seres primitivos sejam todos fêmeas. E assim é.
A história de vida no planeta se iniciou com os organismos assexuados. Neles um indivíduo recolhe material do ambiente para construir outro indivíduo semelhante, e a isso se dá o nome de reprodução. Eras depois, com o objetivo de aumentar a variabilidade genética, o que traria grande vantagem evolutiva, surgiram os organismos sexuados hermafroditas, que dispunham de duas estruturas: uma, dita feminina, fazia exatamente o que já era feito pelos seus ancestrais; outra, masculina, tinha a única função de expelir algum meio que carregasse o código genético para ser usado pela parte feminina de outro indivíduo na construção do novo ser. Mas repare que as denominações de masculino e feminino foram dadas muito tempo depois, por uma espécie que se arvorou o direito de decidir que nome teriam as coisas. Numa análise fria, o que a parte masculina faz não é de fato reprodução. Ela não participa da construção de outro indivíduo, somente fornece parte da informação necessária.
O que dizer então da geração seguinte, onde as funções de “macho” e “fêmea” passaram a ser desempenhadas por sujeitos distintos? O que ocorreu aqui foi que Mãe Natureza achou por bem criar um indivíduo incapaz de se reproduzir; um ser vivo pela metade – já que a reprodução é exatamente o que define a vida. Dizemos ter um aparelho reprodutor masculino, porque assim foi dito há séculos, quando a ciência era feita somente por machos, ou porque não encontramos nomenclatura melhor para nossos penduricalhos. Mas na verdade não temos órgão reprodutor nenhum, apenas mecanismos que expelem DNA. É da fêmea o papel de gerar, de criar, de construir.
É claro que com o tempo a evolução – e mais tarde a cultura - encontraram para nós funções mais úteis, mas que nada dizem sobre nossa origem.
Não somos rascunhos que foram posteriormente melhorados. Elas já são a obra pronta, completa e original, nós somos somente cópias, e quando fomos tirados o tonner da máquina estava acabando.