segunda-feira, 21 de março de 2011

O Feriado

Voltando das férias, chego todo contente e animado no trabalho. A cabeça ainda vagando pelas lembranças do mar e do sol, mas cheio de disposição para recomeçar. No portão da empresa me avisam: "Ah doutor, não tem ninguém aqui hoje, é feriado, aniversário da cidade". Não sabia, já que moro em outro município, decepção total. Mas a surpresa me fez refletir sobre essa coisa de feriados. Qual a razão de se excluir um dia (na verdade vários) do calendário produtivo?

Feriados existem e existiram em todas as culturas, já que cada uma quer manter vivos na memória seus principais eventos cívicos ou religiosos. E é para isso que eles existem: para que as pessoas possam sejam dispensadas dos seus afazeres diários e se dediquem a festejar ou comemorar de alguma forma um fato ou pessoa importante. Feriados religiosos deveriam ser dias de oração, feriados cívicos deveriam ser dia de festa, mas não é isso o que se vê.

Passeando pela cidade no dia que se comemora sua fundação, não vi desfile e fanfarra, não vi festa no parque com piscina de bolinhas e algodão-doce, não vi escolas e prédios públicos enfeitados. Só vi ruas vazias e lojas fechadas. As pessoas simplesmente ficaram em casa, ou esticaram o passeio de fim-de-semana, já que é segunda-feira. As crianças não deixaram de ir à escola para participar de atividades que as ensinasse sobre a história de seu município e de seus fundadores, acredito até que nem saibam alguma coisa sobre isso. Faltaram à escola para fazer... nada.

Então qual a razão da sociedade continuar desperdiçando seu tempo e capital em dias mortos e sem significado? Arrisco um palpite: deve ter muito a ver com uma cultura de trabalho, e da relação do homem com ele, totalmente equivocada. Se Marx disse que o trabalho é a essência do homem, o capitalismo prega que o trabalho é uma mercadoria que o homem vende ao seu empregador. Ainda que eu não seja socialista militante, a primeira definição me é mais simpática. Não foi, porém, a escolhida para dirigir nossas relações profissionais. Na nossa sociedade, trabalho e vida pessoal são coisas absolutamente distintas e inconfundíveis, e é por isso que estamos sempre tentando encolher o tempo de trabalho, porque enquanto trabalhamos não estamos vivendo. Mas é por isso também que nos estafamos quando precisamos trabalhar além do esperado, e exigimos receber remuneração diferencidade por isso. Tratamos como "invasão" e nos irritamos com um telefonema do trabalho durante as férias, não porque toma nosso tempo, mas simplesmente porque "agora não é hora e não quero pensar nisso".

O trabalho é, acima de tudo, nossa contribuição para a sociedade, a base onde se constrói essa grande simbiose chamada humanidade. Não deve e não pode ser dissociado que nenhum outro aspecto da nossa vida, porque no momento em que isso acontece, deixamos de fazer parte da coletividade. Se o capitalismo foi o responsável por criar essa visão mercantilista do trabalho, acredito que ele mesmo tenha a ferramenta para revertê-la: a tecnologia.

Os novos meios de comunicação e de conexão são o caminho para permitir que o homem seja produtivo mesmo enquanto descansa e se diverte, sem prejudicar um ou outro. Aí então poderemos aproveitar um feriado para comemorar nossa cultura coletiva, e não para simplesmente fugir do serviço.

quarta-feira, 9 de março de 2011

E vos dou a vida eterna

Dia desses a bomba de gasolina do meu carro quebrou. O mecânico tirou, jogou fora, instalou uma nova e o carro estava perfeito de novo. Qual a função da bomba de gasolina? Transportar o líquido do tanque para o motor. Não é, basicamente, a mesma coisa que faz nosso coração?

Fiquei aqui pensando, e se dispuséssemos de um estoque de “peças sobressalentes” do nosso corpo, ou algum método para construí-las? Poderíamos, a cada enfermidade, simplesmente trocar células, tecidos ou órgãos com problemas por outros novos e sair andando como o meu carro, belos e saudáveis. Ficção científica? Hoje sim, mas a tecnologia avança a passos largos. Órgãos artificiais, células tronco, cirurgias menos invasivas e cruentas, acho que é questão de tempo até alcançarmos estas possibilidades. E então, seremos imortais.

Claro, talvez a morte ainda nos pregue peças. Acidentes, assassinatos e doenças infecciosas podem levar alguns de nós, mas teremos vencido aquela que talvez seja a pior e mais nefasta de todas as doenças: a velhice. Falando assim, dou a impressão que envelhecer e morrer são coisas ruins. Bem, não são. A Morte é nossa amiga, é ela quem garante o equilíbrio populacional, além de ser o motor da evolução. Pode parecer belo e romântico viver para sempre, mas quais serão as conseqüências?

Para começar, superpopulação – a mãe de todos os desastres ecológicos. Para controlá-la, serão necessárias medidas drásticas de controle de natalidade. Acabo de ler no jornal que até a China está revendo sua política de filho único, frente ao preocupante envelhecimento da população. Nessa esteira, as relações familiares precisarão ser repensadas, já que a maternidade/paternidade perderá quase toda a importância na sociedade.

E quanto aos já combalidos sistemas previdenciários? Homens eternos não poderão jamais se aposentar, porque não haverá jovens que os sustentem. Todos terão que produzir, mas para isso as relações do homem com o trabalho precisaram ser revistas. Não haverá quem agüente passar a maior parte do tempo se dedicando exclusivamente à produção de capital, esperando os dias de descanso que nunca virão.

Nem me arrisco a pensar nos desdobramentos mais filosóficos deste cenário: nossa relação com a morte, a função das religiões, os conflitos de gerações. Deverá ser uma sociedade toda nova, diferente da atual nas suas mais profundas essências. Mas um desafio para o homo sapiens e sua fantástica capacidade de se adaptar.