quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O Impossível

Há milhares de anos atrás nossos ancestrais aprenderam a praticar aquilo que hoje chamamos de solidariedade. Não por convenções morais ou imposições religiosas, mas pela sobrevivência, porque era preciso haver cooperação nas tarefas de caçar, guerrear ou simplesmente se proteger. Hoje, no nosso confortável mundo moderno de supermercados e casas muradas, sobreviver ficou muito mais fácil e o altruísmo deixou de ser uma necessidade coletiva e passou a ser virtude de poucos. Garantir o próprio ganho, ainda que em detrimento do bem-estar alheio, passa a ser a regra. No entanto, quando acontecem grandes catástrofes e calamidades, quando a estrutura social desaba, parece que o instinto primal aflora e a solidariedade gratuita renasce. E no sofrimento as pessoas percebem o quanto ela pode ser prazerosa.

"O Impossível" ("The impossible", EUA/Espanha, 2012) mostra com primazia essa nova realidade, ao retratar o drama das vítimas do grande tsunami de 2004. No meio da crise, todos se ajudam. Entre aqueles que percorrem o terreno devastado em busca de sobreviventes, que os levam em suas caminhonetes para os abrigos e hospitais, que compartilham os escassos recursos, comida, roupas e até telefones, sem falar nos profissionais que se dedicam com todas as suas forças para aplacar a dor das vítimas, ainda que obviamente a recompensa financeira seja quase nula. Claro que há exceções, como aquele que se recusa a emprestar o celular porque precisa economizar bateria para fazer seus próprios contatos, ou os ladrões e saqueadores que, mesmo não aparecendo nesta história, sabemos que existem. Mas no final não passam disso: exceções, pessoas de espírito pobre que não entendem o valor - prático e moral - de ajudar.

Para o filme, três salvas de palmas. A primeira para a edição de som. A alternância entre o som ensurdecedor das ondas e o silêncio profundo e desesperador das submersões fazem o coração quase parar, aumentando exponencialmente a carga emocional (que já é enorme) da trama. A segunda para as brilhantes atuações dos protagonistas, em especial de Tom Holland no papel de Lucas, o adolescente que do dia para a noite se vê obrigado a se tornara adulto, responsável, lutador, líder, mas continua com seus medos e indecisões de criança. E a terceira para a maquiagem, que conseguiu a façanha de deixar Naomi Watts feia!

Enfim, um filme para chorar durante quase todos os 104 minutos, e para continuar pensando por vários dias.