Acompanhe agora o espetacular desfecho da nossa história.
A preparação demorou algumas semanas, mas a coisa era tão nova, tão incomum, tão desesperadora e ao mesmo tempo excitante que para ela pareceram poucos dias. Primeiro planejar com cuidado o método. Tinha que ser tudo muito discreto, não poderia haver de maneira alguma suspeitas sobre ela. Deveria parecer um acidente, ou melhor ainda, morte natural, facilmente explicada pela doença recente. Em seguida começaram as pesquisas, pela Internet, em revistas das mais varidas, entre os conhecidos. Até que descobriu um velho índio que tinha a solução: uma poção que levaria o pobre coitado para a outra vida, não tinha gosto e era impossível de ser detectada em qualquer exame pós-morte. Comprou a preço alto um pequeno frasco e numa manhã de sábado despejou a pajelança no suco de laranja do marido.
A droga demorou algumas horas para fazer efeito. A tosse piorou, as dores se transformaram em cólicas terríveis, depois uma tontura, seguida da vômitos. Mas até a noite o pobre homem continuava tão vivo como sempre. Não tinha jeito, precisava levá-lo ao hospital. Era um tremendo risco, o crime poderia ser descoberto, talvez a poção não fosse tão invisível como garantira o xamã, mas não podia ver o homem que amava sofrendo tanto sem dar-lhe um último socorro. No hospital tudo correu ao contrário do esperado. As cólicas não passavam, a dor de cabeça ficava cada vez pior, o homem já regurgitara todo a bile que possuia, mas os espasmos não cessavam. Não estava propriamente inconsciente, mas a tontura e a confusão mental eram tantas que não conseguia mais conversar. E assim permaneceu por sete longos dias até que numa noite particularmente ruim, lá pelas três da madrugada, adormeceu tranqüilo como não fazia há vário meses. E pela manhã ... acordou melhor. Os dias seguintes foram de melhora contínua, até que voltou ao quadro inicial e recebeu alta dos médicos. A mulher estava ao mesmo tempo espantada e raivosa, não dera nada certo. Não via a hora de voltar até o índio e pedir o dinheiro de volta, além de lhe dizer poucas e boas e fazer uma tremenda propaganda negativa de seus serviços. Agora teria que começar tudo de novo.
Mas havia mais surpresas pela frente. Nos dias que se seguiram, os acessos de tosse começaram a se tornar mais brandos e mais espaçados. As dores de cabeça e pelo corpo reagiam melhor aos analgésicos, a pele começou a recobrar a cor, o apetite voltou, começou a ganhar peso. A mulher adiou a visita ao pagé, esperando para ver até onde iria o efeito da poção. O mais incrível, porém, aconteceu exatamente um mês depois da administração do veneno. Durante a noite ele teve uma seqüência de vários sonhos eróticos. Pela manhã sentia um bem-estar especial, uma força renovada se espalhava pelo corpo, um prazer que não podia descrever nem entender muito bem. Aos poucos, enquanto acordava de todo, foi tomando consciência do próprio corpo, até que mentalmente focalizou a região da pelve. O que era aquilo? Não podia ser, a meses não sentia... Seria verdade ou só a imaginação atendendo ao seu mais profundo desejo? Arrancou o lençol, baixou os olhos e confirmou: estava com uma belíssima e espetacular ereção. A mulher acordou assustada com o movimento brusco, acompanhou-lhe o olhar e deu um grito de espanto. Voltou-se para ele, ele retribui o olhar, e em segundos estavam com os corpos engalfinhados, se amando com um ardor que não experimentavam desde as primeiras vezes, ainda adolescentes. Mal terminaram e ele já estava pronto para mais uma sessão, e depois dessa ainda uma terceira. Deixou-a então estirada na cama e saiu para trabalhar. Chegando ao escritório, ainda no corredor cruzou com a secretária do chefe, que portava um decote apreciável e uma saia com uma provocante fenda lateral. Ficou imediatamente excitado. Isso não era comum, pois sempre fora um homem bastante tranqüilo, mas não se importou, devia ser reflexo da recuperação recente da virilidade. Durante toda a manhã, no entanto, sentiu-se atraído por cada mulher que lhe cruzou o caminho, e pela hora do almoço já estava com um nível de libido reprimida tão alto que decidiu almoçar em casa, e lá fez amor duas vezes com a estupefata esposa. O expediente da tarde correu exatamente como o matutino, a ao retornar ao lar jantou apressado, ansioso por estar na cama com a mulher. Ali se amaram mais três vezes, e mais uma pela manhã.
E assim correram os dias seguintes. A esposa fascinada com o efeito que só podia atribuir à poção do índio, que ao invés de matar curou o marido. Que sabedoria daquele velho pagé, não fez o que foi pedido, mas por linhas tortas atendeu seu desejo. Precisava voltar lá assim que possível. Passaram-se algumas semanas, e o frenesi sexual do homem parecia não ter fim, até que o vigor da esposa começou a dar sinais de que não conseguia acompanhá-lo. Fazia um grande esforço para atender ao marido sempre que solicitada, mas aquilo já estava ficando além de sua capacidade. Sentia-se a cada dia mais cansada, as tarefas no trabalho e em casa começavam a atrasar, sob os olhos já apareciam discretas bordas arroxeadas. Até que não suportou mais. Numa manhã de domingo acordou com as carícias do marido, e ao lembrar da partida em três tempos da noite anterior levantou-se apressada e foi fazer o café.
Continuaram fazendo amor diariamente, mas quase sempre a vontade dela acabava antes que a dele, e as recusas tornavam-se cada vez mais freqüentes. No início ele se sentia um pouco incomodado e contrariado, depois foi se irritando, começou a duvidar dos sentimentos da esposa. Não conseguia compreender que era a sua libido que estava descontrolada. Achava maravilhoso que mesmo fazendo tanto sexo com a esposa ainda sentisse calor a cada par de pernas, seios e nádegas que cruzava. Até que numa sexta-feira ligou para casa avisando que iria tomar uma cerveja com o pessoal do escritório e voltaria mais tarde. Quando se deitou, a esposa imediatamente sentiu um perfume diferente.
Pela manhã ela acordou com tosse.
sábado, 19 de setembro de 2009
sábado, 12 de setembro de 2009
O caminho da ciência
Preciso confessar, não sei bem o que responder quando me perguntam sobre minha religião. Não me encaixo nas rotulagens tradicionais, sendo chamado de ateu pelos crentes e de agnóstico pelos ateus. Então vou aqui abandonar as classificações e tentar entender minhas crenças.
Para começar, acredito na ciência. Alguém dirá que esta é minha religião, mas nada pode ser mais errado. A ciência tem algo de fundamentalmente diferente de todos os outros tipos de crença, religiões ou pensamentos esotéricos. Ela jamais pretende ter respostas definitivas para coisa alguma, suas conclusões são sempre provisórias e sujeitas a contestação e é justamente aí que reside sua beleza. Cada nova descoberta ou teoria parte dos pressupostos estabelecidos pelas descobertas e teorias anteriores e ao mesmo tempo serve de base para as seguintes. Assim o conhecimento evolui, se aproximando cada vez mais da realidade, ainda que nunca a alcance completamente.
Pode ser que as religiões estejam certas, talvez as respostas dadas pela cabala, pelas runas, tarô, búzios ou astrologia sejam mais verdadeiras do que as teorias científicas, mas se não forem, não há como descobrir. A ciência pode não dar as melhores respostas, mas ao menos não fica amarrada a respostas erradas. Pode não ser a melhor forma de se alcançar a verdade, mas com certeza é a forma mais segura para não se afastar dela.
E ainda tem mais, historicamente muitas explicações sobrenaturais foram substituídas por novas descobertas científicas, deixando claro a mim que os deuses encolhem conforme a ciência cresce.
Agora sei no que acredito. Acredito que qualquer verdade revelada a algum estafeta divino ou oculta em sinais místicos tem alguma probabilidade de ser boa, mas prefiro apostar as minhas fichas naquilo que minha razão consegue entender, explicar e acompanhar.
Para começar, acredito na ciência. Alguém dirá que esta é minha religião, mas nada pode ser mais errado. A ciência tem algo de fundamentalmente diferente de todos os outros tipos de crença, religiões ou pensamentos esotéricos. Ela jamais pretende ter respostas definitivas para coisa alguma, suas conclusões são sempre provisórias e sujeitas a contestação e é justamente aí que reside sua beleza. Cada nova descoberta ou teoria parte dos pressupostos estabelecidos pelas descobertas e teorias anteriores e ao mesmo tempo serve de base para as seguintes. Assim o conhecimento evolui, se aproximando cada vez mais da realidade, ainda que nunca a alcance completamente.
Pode ser que as religiões estejam certas, talvez as respostas dadas pela cabala, pelas runas, tarô, búzios ou astrologia sejam mais verdadeiras do que as teorias científicas, mas se não forem, não há como descobrir. A ciência pode não dar as melhores respostas, mas ao menos não fica amarrada a respostas erradas. Pode não ser a melhor forma de se alcançar a verdade, mas com certeza é a forma mais segura para não se afastar dela.
E ainda tem mais, historicamente muitas explicações sobrenaturais foram substituídas por novas descobertas científicas, deixando claro a mim que os deuses encolhem conforme a ciência cresce.
Agora sei no que acredito. Acredito que qualquer verdade revelada a algum estafeta divino ou oculta em sinais místicos tem alguma probabilidade de ser boa, mas prefiro apostar as minhas fichas naquilo que minha razão consegue entender, explicar e acompanhar.
sábado, 5 de setembro de 2009
A VOLTA - Parte 2
Atendendo a centenas de pedidos, leia agora mais um capítulo da trama que está abalando os nervos de todos!
Chegou em casa à noite, o marido já dormindo. Deitou-se ao seu lado e adormeceu imediatamente, com medo de que precisasse pensar no que acabara de acontecer. No dia seguinte acordou bem cedo, preparou o café e saiu depressa. Se sentia estranha. Tinha sido infiel e traído seu marido, pior ainda, traído todos os princípios que sempre defendera com tanto entusiasmo. Mas estranhamente não sentia nem uma gota de arrependimento. Ao contrário, ansiava pela próxima oportunidade. O clima no escritório estava tenso, como esperava. Os mais conservadores – ou talvez mais hipócritas – a olhavam com reprovação, outros lhe dirigiam risinhos, as amigas mais íntimas correram a saber como estava se sentindo, mas querendo de fato saber detalhes da tarde de amor. Até que, como era inevitável, cruzou com seu jovem amante. Jamais poderia imaginar que teria aquela reação, mas arrastou-o até um canto deserto da copa e o beijou. Marcaram de sair na hora do almoço.
Depois de algumas semanas de encontros diários nos intervalos ou no final do expediente, o rapaz deu sinais de que não estava mais tão empolgado. Talvez por medo de aprofundar uma relação com uma mulher casada, ou simplesmente porque perdera o encanto, como é comum à juventude. Acabaram não se vendo mais. Em poucos dias, porém, já havia outra vítima sendo caçada, depois outra, e outra. Depois começou a freqüentar bares no final do dia, e terminava sempre num quarto de motel.
No início o marido se sentiu feliz pela mulher estar seguindo a vida apesar de sua doença, por ela estar se sentindo feliz novamente. Mas em pouco tempo começou a desconfiar da causa de tanta alegria. Até que uma noite ela se descuidou demais. Chegou em casa muito tarde, e suas roupas exalavam um cheiro que não era dela. Ele sentiu um ódio profundo queimando suas vísceras, mas se virou para o outro lado e preferiu deixar a discussão para o outro dia. Mas passou a noite toda remoendo, buscando explicações, e pela manhã tinha chegado à conclusão de que não poderia condená-la. A culpa era dele. Tantos meses sem provê-la, e ainda obrigando-a a cuidar dele a todo instante, era natural que ela se sentisse carente e num momento de fraqueza fosse buscar apoio em outro ombros. Contava que sararia logo, e então tudo voltaria ao normal. Mas não voltou.
O tempo passou, ela continuava naquela vida de devassidão, ele continuava fazendo de conta que não via. Sentia-se corroído por dentro, mas fazia um esforço sobre-humano para não demonstrar. Precisava canalizar todas as suas forças para uma recuperação rápida de suas forças, pois só isso poderia salvar seu casamento. Mas é claro que ela não acreditava na sua encenação. Os sinais eram óbvios, ele já não a beijava, evitava até olhá-la de frente. As conversas eram monossilábicas e ele não se dirigia a ela nem para reclamar das constantes saídas e dos horários de chegada, cada vez mais avançados. Ela começou a sentir raiva. Porque ele não brigava, porque não a recriminava, porque não lutava por ela? Estaria satisfeito com aquela situação? Ou quem sabe não se importava? Será que não a amava mais? Já que ele parecia não dar a mínima, se entregou de vez e com mais fervor à luxúria. Agora não era só desejo de se satisfazer, mas também de machucar mais ainda o homem que a ignorava, numa tentativa de reanimá-lo à força. Mas não estava dando certo, e a situação estava ficando insustentável.
Foi quando uma pequena semente de idéia começou a brotar em sua mente. Uma semente de erva daninha, dessas que começam a crescer sorrateiras, por entre as flores, e quando se dá conta já tomou todo o jardim. Se estava se sentindo bem naquela vida, se o marido não se incomodava, porque não assumir logo. Mas não podia sustentar uma mentira para sempre, em breve seus filhos começariam a desconfiar. Era preciso acabar logo com a farsa. Mas um divórcio a essa altura seria quase um crime. Abandonar um homem doente, que dependia dela para quase tudo, que mal podia se alimentar sozinho, seria maldade demais. Era preciso esperar ele melhorar. Mas já se passavam quase seis meses, sem nenhum sinal de melhora, as mesmas dores, a mesma tosse. A mesma impotência. E o pior, sem que se chegasse a um diagnóstico. E se esse quadro se prolongasse indefinidamente? Claro, havia outra possibilidade, se a doença piorasse de vez. Ele já estava bem magro, a pele desbotada, os olhos sem vida. Talvez a doença não evoluísse, mas o corpo fosse definhando aos poucos, até não poder mais sustentar a vida. Ela se assustou, estava desejando que ele morresse? Claro que não! Ou talvez sim. Eram as duas alternativas, a cura ou a morte, ambas fora de seu alcance. Bem, na verdade, não podia curá-lo, mas podia fazer alguma coisa quanto à segunda opção. Como? Além de desejar que ele morresse, estava cogitando facilitar o processo? Que terrível! Pensamento abominável! Mas a erva abriu um pouco mais de espaço. Seria assim tão horrível abreviar o sofrimento de um homem que não parece apresentar nenhum sinal de que voltará a ter uma vida normal, e que ainda por cima carrega para o fundo do poço a vida de outras pessoas? Ou pelo menos mais uma pessoa. Mereceria ela viver pelo resto de sua vida ao lado de um semi-homem, precisando se esgueirar pelas ruas, cultivando sucessivas mentiras, para satisfazer seus desejos? Não era justo. E só havia uma saída. Ele precisava morrer.
Não perca nas próximas semanas o desfecho desta emocionante história...
Chegou em casa à noite, o marido já dormindo. Deitou-se ao seu lado e adormeceu imediatamente, com medo de que precisasse pensar no que acabara de acontecer. No dia seguinte acordou bem cedo, preparou o café e saiu depressa. Se sentia estranha. Tinha sido infiel e traído seu marido, pior ainda, traído todos os princípios que sempre defendera com tanto entusiasmo. Mas estranhamente não sentia nem uma gota de arrependimento. Ao contrário, ansiava pela próxima oportunidade. O clima no escritório estava tenso, como esperava. Os mais conservadores – ou talvez mais hipócritas – a olhavam com reprovação, outros lhe dirigiam risinhos, as amigas mais íntimas correram a saber como estava se sentindo, mas querendo de fato saber detalhes da tarde de amor. Até que, como era inevitável, cruzou com seu jovem amante. Jamais poderia imaginar que teria aquela reação, mas arrastou-o até um canto deserto da copa e o beijou. Marcaram de sair na hora do almoço.
Depois de algumas semanas de encontros diários nos intervalos ou no final do expediente, o rapaz deu sinais de que não estava mais tão empolgado. Talvez por medo de aprofundar uma relação com uma mulher casada, ou simplesmente porque perdera o encanto, como é comum à juventude. Acabaram não se vendo mais. Em poucos dias, porém, já havia outra vítima sendo caçada, depois outra, e outra. Depois começou a freqüentar bares no final do dia, e terminava sempre num quarto de motel.
No início o marido se sentiu feliz pela mulher estar seguindo a vida apesar de sua doença, por ela estar se sentindo feliz novamente. Mas em pouco tempo começou a desconfiar da causa de tanta alegria. Até que uma noite ela se descuidou demais. Chegou em casa muito tarde, e suas roupas exalavam um cheiro que não era dela. Ele sentiu um ódio profundo queimando suas vísceras, mas se virou para o outro lado e preferiu deixar a discussão para o outro dia. Mas passou a noite toda remoendo, buscando explicações, e pela manhã tinha chegado à conclusão de que não poderia condená-la. A culpa era dele. Tantos meses sem provê-la, e ainda obrigando-a a cuidar dele a todo instante, era natural que ela se sentisse carente e num momento de fraqueza fosse buscar apoio em outro ombros. Contava que sararia logo, e então tudo voltaria ao normal. Mas não voltou.
O tempo passou, ela continuava naquela vida de devassidão, ele continuava fazendo de conta que não via. Sentia-se corroído por dentro, mas fazia um esforço sobre-humano para não demonstrar. Precisava canalizar todas as suas forças para uma recuperação rápida de suas forças, pois só isso poderia salvar seu casamento. Mas é claro que ela não acreditava na sua encenação. Os sinais eram óbvios, ele já não a beijava, evitava até olhá-la de frente. As conversas eram monossilábicas e ele não se dirigia a ela nem para reclamar das constantes saídas e dos horários de chegada, cada vez mais avançados. Ela começou a sentir raiva. Porque ele não brigava, porque não a recriminava, porque não lutava por ela? Estaria satisfeito com aquela situação? Ou quem sabe não se importava? Será que não a amava mais? Já que ele parecia não dar a mínima, se entregou de vez e com mais fervor à luxúria. Agora não era só desejo de se satisfazer, mas também de machucar mais ainda o homem que a ignorava, numa tentativa de reanimá-lo à força. Mas não estava dando certo, e a situação estava ficando insustentável.
Foi quando uma pequena semente de idéia começou a brotar em sua mente. Uma semente de erva daninha, dessas que começam a crescer sorrateiras, por entre as flores, e quando se dá conta já tomou todo o jardim. Se estava se sentindo bem naquela vida, se o marido não se incomodava, porque não assumir logo. Mas não podia sustentar uma mentira para sempre, em breve seus filhos começariam a desconfiar. Era preciso acabar logo com a farsa. Mas um divórcio a essa altura seria quase um crime. Abandonar um homem doente, que dependia dela para quase tudo, que mal podia se alimentar sozinho, seria maldade demais. Era preciso esperar ele melhorar. Mas já se passavam quase seis meses, sem nenhum sinal de melhora, as mesmas dores, a mesma tosse. A mesma impotência. E o pior, sem que se chegasse a um diagnóstico. E se esse quadro se prolongasse indefinidamente? Claro, havia outra possibilidade, se a doença piorasse de vez. Ele já estava bem magro, a pele desbotada, os olhos sem vida. Talvez a doença não evoluísse, mas o corpo fosse definhando aos poucos, até não poder mais sustentar a vida. Ela se assustou, estava desejando que ele morresse? Claro que não! Ou talvez sim. Eram as duas alternativas, a cura ou a morte, ambas fora de seu alcance. Bem, na verdade, não podia curá-lo, mas podia fazer alguma coisa quanto à segunda opção. Como? Além de desejar que ele morresse, estava cogitando facilitar o processo? Que terrível! Pensamento abominável! Mas a erva abriu um pouco mais de espaço. Seria assim tão horrível abreviar o sofrimento de um homem que não parece apresentar nenhum sinal de que voltará a ter uma vida normal, e que ainda por cima carrega para o fundo do poço a vida de outras pessoas? Ou pelo menos mais uma pessoa. Mereceria ela viver pelo resto de sua vida ao lado de um semi-homem, precisando se esgueirar pelas ruas, cultivando sucessivas mentiras, para satisfazer seus desejos? Não era justo. E só havia uma saída. Ele precisava morrer.
Não perca nas próximas semanas o desfecho desta emocionante história...
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