sábado, 24 de outubro de 2009

A Morte para um cético

Há alguns anos iniciei uma jornada de abandono das crenças religiosas rumo a um ceticismo aberto, racional e esclarecido. No meio do caminho topei um grande obstáculo intelectual: como entender e aceitar a morte numa perspectiva cética?
Quem primeiro veio em meu auxílio foi Nietzsche, me dizendo que o ateu deve aproveitar a vida ao máximo, pois não há outra a ser vivida. Bom conselho, mas insuficiente para responder a pergunta que me fazia, e que até hoje ouço daqueles que tentam me demover ou que simplesmente não entendem. Afinal, que sentido há na vida se um dia ela acaba e nada resta? Depois de alguma (não, de muita) reflexão, encontrei um caminho através da teoria da evolução e da teoria dos sistemas.
A Evolução me diz que a morte não é um fim, mas um meio, uma ferramenta da Seleção Natural. Sem a morte dos indivíduos não é possível à espécie se adaptar ao meio. Mas para aceitá-la é preciso abandonar completamente o individualismo e enxergar o ser como um elemento de um sistema maior. Aí entra a segunda teoria.
Um sistema é um conjunto de elementos que se unem com um objetivo comum. Acontece que um sistema pode ser – e na verdade quase sempre é – formado por subsistemas, e é ele próprio parte de um sistema maior. Por esta óptica fica difícil caracterizar o que é um indivíduo. Somos compostos de sistemas orgânicos, órgãos, tecidos, células, organelas, moléculas, átomos e partículas sub-atômicas, e nos agrupamos em populações, comunidades, ecossistemas, planetas, sistemas solares, galáxias e universos. Níveis de organização hierarquicamente organizados se interpenetrando. Será pura convenção considerar o corpo como o nível básico, referencial, a que se chama “indivíduo”? Talvez sim, mas que identidade há nele? Não se pode dizer que a alma é a identidade, pois sua existência já foi excluída por princípio – a resposta precisa estar na matéria. Olhando de perto, percebemos que nossa matéria é constantemente destruída e reconstruída, recebendo matéria do ambiente e a ele devolvendo, e em alguns anos de vida praticamente nenhum átomo de um indivíduo estava nele na hora de seu nascimento, então quem somos nós?
Aqui arrisco, a título de hipótese, uma definição: “indivíduo é um sistema formado por elementos que se agrupam em um dado momento, criando uma estrutura capaz de se tornar consciente, e assim se manter mesmo que os elementos sejam paulatinamente trocados por similares”. A morte seria então um momento em que a estrutura de organização destes elementos entra em colapso.
Pode-se reconhecer um punhado de falhas nesta definição, mas a mim ele parece suficiente pra solucionar meu enigma. Agora a morte não tira o sentido da vida. Ela é simplesmente um momento em que os meus átomos deixam de formar um sistema para se unirem a outros. A verdadeira vida não reside mais em mim, mas em todo o universo, e a mim ela sobreviverá. Agora eu ganho vidas passadas e vidas pós-morte, antigas prerrogativas dos crentes; minha existência passa a ter um sentido maior: de colaborar, enquanto existir, para a evolução de meu grupo e de meu mundo. Estou salvo!
Ainda há um outro elemento a discutir, algo que não é matéria, e que pode ser a chave para encontrar o sentido da existência: o conhecimento. Mas deixemos isso para outra ocasião.

sábado, 17 de outubro de 2009

A Mulher que quero

E já que estamos num momento de ufanizar as mulheres, um pouco de poesia:

A Mulher que quero é linda, não somente porque é, mas porque se sabe.
É sábia, como somente as mulheres podem ser.
É suave, e na brandura demonstra sua força.

A Mulher que quero compartilha comigo uma vida
Sem deixar de ter sua própria.
Me quer sempre por perto, mas me permite a solidão.
Me quer sempre ao seu lado, mas me permite postar-me à sua frente
Para contemplá-la, venerá-la e idolatrá-la.

A Mulher que quero é fiel e sincera.
Mas para quê um par de palavras
Se a mentira é a única traição?

A Mulher que quero não abre mão dos benefícios de ser Mulher.
A ela eu posso servir,
Não porque necessita, mas porque me permitiu.
A ela eu sempre protejo, ou ao menos assim penso
Enquanto sou eu o protegido.

A Mulher que quero me contesta, me desafia, me estimula,
Não aceita calada o que não está bem
E nem o que está, já que tudo poderá estar melhor.

A Mulher que quero não se arrepende
Pois isso só fazem os espíritos pobres.
Não abandona seu passado
Porque o passado é a essência na qual somos moldados.

A Mulher que quero basta ser sempre, toda, somente
Mulher.

sábado, 3 de outubro de 2009

Da costela de Eva

Dia desses recebi por e-mail a seguinte piada:
O que disse Deus depois de criar o homem? Tenho que ser capaz de fazer coisa melhor.
E o que disse Deus depois de criar a mulher? A prática traz a perfeição.

Variações da anedota mais antiga, onde Deus fez primeiro o rascunho e depois a obra prima. Adorei e concordo quase totalmente. A mim não resta dúvida de que as mulheres são superiores aos homens em qualquer quesito: mais belas, mais sábias, mais eficientes, mais requintadas, mais complexas.
A única falha no argumento humorístico é que a fábula bíblica não coaduna com a observação científica. Na verdade o homem - ou para ser mais exato, o macho - deriva da fêmea, e não o contrário. No início de nossa vida fetal, somos todos anatomicamente femininos. Posteriormente, naqueles geneticamente marcados pelo escudo de marte, uma descarga de testosterona transforma os órgãos femininos em masculinos. E como a embriogênese recria a filogênese, espera-se que os seres primitivos sejam todos fêmeas. E assim é.
A história de vida no planeta se iniciou com os organismos assexuados. Neles um indivíduo recolhe material do ambiente para construir outro indivíduo semelhante, e a isso se dá o nome de reprodução. Eras depois, com o objetivo de aumentar a variabilidade genética, o que traria grande vantagem evolutiva, surgiram os organismos sexuados hermafroditas, que dispunham de duas estruturas: uma, dita feminina, fazia exatamente o que já era feito pelos seus ancestrais; outra, masculina, tinha a única função de expelir algum meio que carregasse o código genético para ser usado pela parte feminina de outro indivíduo na construção do novo ser. Mas repare que as denominações de masculino e feminino foram dadas muito tempo depois, por uma espécie que se arvorou o direito de decidir que nome teriam as coisas. Numa análise fria, o que a parte masculina faz não é de fato reprodução. Ela não participa da construção de outro indivíduo, somente fornece parte da informação necessária.
O que dizer então da geração seguinte, onde as funções de “macho” e “fêmea” passaram a ser desempenhadas por sujeitos distintos? O que ocorreu aqui foi que Mãe Natureza achou por bem criar um indivíduo incapaz de se reproduzir; um ser vivo pela metade – já que a reprodução é exatamente o que define a vida. Dizemos ter um aparelho reprodutor masculino, porque assim foi dito há séculos, quando a ciência era feita somente por machos, ou porque não encontramos nomenclatura melhor para nossos penduricalhos. Mas na verdade não temos órgão reprodutor nenhum, apenas mecanismos que expelem DNA. É da fêmea o papel de gerar, de criar, de construir.
É claro que com o tempo a evolução – e mais tarde a cultura - encontraram para nós funções mais úteis, mas que nada dizem sobre nossa origem.
Não somos rascunhos que foram posteriormente melhorados. Elas já são a obra pronta, completa e original, nós somos somente cópias, e quando fomos tirados o tonner da máquina estava acabando.

sábado, 19 de setembro de 2009

A VOLTA - Parte Final

Acompanhe agora o espetacular desfecho da nossa história.

A preparação demorou algumas semanas, mas a coisa era tão nova, tão incomum, tão desesperadora e ao mesmo tempo excitante que para ela pareceram poucos dias. Primeiro planejar com cuidado o método. Tinha que ser tudo muito discreto, não poderia haver de maneira alguma suspeitas sobre ela. Deveria parecer um acidente, ou melhor ainda, morte natural, facilmente explicada pela doença recente. Em seguida começaram as pesquisas, pela Internet, em revistas das mais varidas, entre os conhecidos. Até que descobriu um velho índio que tinha a solução: uma poção que levaria o pobre coitado para a outra vida, não tinha gosto e era impossível de ser detectada em qualquer exame pós-morte. Comprou a preço alto um pequeno frasco e numa manhã de sábado despejou a pajelança no suco de laranja do marido.
A droga demorou algumas horas para fazer efeito. A tosse piorou, as dores se transformaram em cólicas terríveis, depois uma tontura, seguida da vômitos. Mas até a noite o pobre homem continuava tão vivo como sempre. Não tinha jeito, precisava levá-lo ao hospital. Era um tremendo risco, o crime poderia ser descoberto, talvez a poção não fosse tão invisível como garantira o xamã, mas não podia ver o homem que amava sofrendo tanto sem dar-lhe um último socorro. No hospital tudo correu ao contrário do esperado. As cólicas não passavam, a dor de cabeça ficava cada vez pior, o homem já regurgitara todo a bile que possuia, mas os espasmos não cessavam. Não estava propriamente inconsciente, mas a tontura e a confusão mental eram tantas que não conseguia mais conversar. E assim permaneceu por sete longos dias até que numa noite particularmente ruim, lá pelas três da madrugada, adormeceu tranqüilo como não fazia há vário meses. E pela manhã ... acordou melhor. Os dias seguintes foram de melhora contínua, até que voltou ao quadro inicial e recebeu alta dos médicos. A mulher estava ao mesmo tempo espantada e raivosa, não dera nada certo. Não via a hora de voltar até o índio e pedir o dinheiro de volta, além de lhe dizer poucas e boas e fazer uma tremenda propaganda negativa de seus serviços. Agora teria que começar tudo de novo.
Mas havia mais surpresas pela frente. Nos dias que se seguiram, os acessos de tosse começaram a se tornar mais brandos e mais espaçados. As dores de cabeça e pelo corpo reagiam melhor aos analgésicos, a pele começou a recobrar a cor, o apetite voltou, começou a ganhar peso. A mulher adiou a visita ao pagé, esperando para ver até onde iria o efeito da poção. O mais incrível, porém, aconteceu exatamente um mês depois da administração do veneno. Durante a noite ele teve uma seqüência de vários sonhos eróticos. Pela manhã sentia um bem-estar especial, uma força renovada se espalhava pelo corpo, um prazer que não podia descrever nem entender muito bem. Aos poucos, enquanto acordava de todo, foi tomando consciência do próprio corpo, até que mentalmente focalizou a região da pelve. O que era aquilo? Não podia ser, a meses não sentia... Seria verdade ou só a imaginação atendendo ao seu mais profundo desejo? Arrancou o lençol, baixou os olhos e confirmou: estava com uma belíssima e espetacular ereção. A mulher acordou assustada com o movimento brusco, acompanhou-lhe o olhar e deu um grito de espanto. Voltou-se para ele, ele retribui o olhar, e em segundos estavam com os corpos engalfinhados, se amando com um ardor que não experimentavam desde as primeiras vezes, ainda adolescentes. Mal terminaram e ele já estava pronto para mais uma sessão, e depois dessa ainda uma terceira. Deixou-a então estirada na cama e saiu para trabalhar. Chegando ao escritório, ainda no corredor cruzou com a secretária do chefe, que portava um decote apreciável e uma saia com uma provocante fenda lateral. Ficou imediatamente excitado. Isso não era comum, pois sempre fora um homem bastante tranqüilo, mas não se importou, devia ser reflexo da recuperação recente da virilidade. Durante toda a manhã, no entanto, sentiu-se atraído por cada mulher que lhe cruzou o caminho, e pela hora do almoço já estava com um nível de libido reprimida tão alto que decidiu almoçar em casa, e lá fez amor duas vezes com a estupefata esposa. O expediente da tarde correu exatamente como o matutino, a ao retornar ao lar jantou apressado, ansioso por estar na cama com a mulher. Ali se amaram mais três vezes, e mais uma pela manhã.
E assim correram os dias seguintes. A esposa fascinada com o efeito que só podia atribuir à poção do índio, que ao invés de matar curou o marido. Que sabedoria daquele velho pagé, não fez o que foi pedido, mas por linhas tortas atendeu seu desejo. Precisava voltar lá assim que possível. Passaram-se algumas semanas, e o frenesi sexual do homem parecia não ter fim, até que o vigor da esposa começou a dar sinais de que não conseguia acompanhá-lo. Fazia um grande esforço para atender ao marido sempre que solicitada, mas aquilo já estava ficando além de sua capacidade. Sentia-se a cada dia mais cansada, as tarefas no trabalho e em casa começavam a atrasar, sob os olhos já apareciam discretas bordas arroxeadas. Até que não suportou mais. Numa manhã de domingo acordou com as carícias do marido, e ao lembrar da partida em três tempos da noite anterior levantou-se apressada e foi fazer o café.
Continuaram fazendo amor diariamente, mas quase sempre a vontade dela acabava antes que a dele, e as recusas tornavam-se cada vez mais freqüentes. No início ele se sentia um pouco incomodado e contrariado, depois foi se irritando, começou a duvidar dos sentimentos da esposa. Não conseguia compreender que era a sua libido que estava descontrolada. Achava maravilhoso que mesmo fazendo tanto sexo com a esposa ainda sentisse calor a cada par de pernas, seios e nádegas que cruzava. Até que numa sexta-feira ligou para casa avisando que iria tomar uma cerveja com o pessoal do escritório e voltaria mais tarde. Quando se deitou, a esposa imediatamente sentiu um perfume diferente.
Pela manhã ela acordou com tosse.

sábado, 12 de setembro de 2009

O caminho da ciência

Preciso confessar, não sei bem o que responder quando me perguntam sobre minha religião. Não me encaixo nas rotulagens tradicionais, sendo chamado de ateu pelos crentes e de agnóstico pelos ateus. Então vou aqui abandonar as classificações e tentar entender minhas crenças.
Para começar, acredito na ciência. Alguém dirá que esta é minha religião, mas nada pode ser mais errado. A ciência tem algo de fundamentalmente diferente de todos os outros tipos de crença, religiões ou pensamentos esotéricos. Ela jamais pretende ter respostas definitivas para coisa alguma, suas conclusões são sempre provisórias e sujeitas a contestação e é justamente aí que reside sua beleza. Cada nova descoberta ou teoria parte dos pressupostos estabelecidos pelas descobertas e teorias anteriores e ao mesmo tempo serve de base para as seguintes. Assim o conhecimento evolui, se aproximando cada vez mais da realidade, ainda que nunca a alcance completamente.
Pode ser que as religiões estejam certas, talvez as respostas dadas pela cabala, pelas runas, tarô, búzios ou astrologia sejam mais verdadeiras do que as teorias científicas, mas se não forem, não há como descobrir. A ciência pode não dar as melhores respostas, mas ao menos não fica amarrada a respostas erradas. Pode não ser a melhor forma de se alcançar a verdade, mas com certeza é a forma mais segura para não se afastar dela.
E ainda tem mais, historicamente muitas explicações sobrenaturais foram substituídas por novas descobertas científicas, deixando claro a mim que os deuses encolhem conforme a ciência cresce.
Agora sei no que acredito. Acredito que qualquer verdade revelada a algum estafeta divino ou oculta em sinais místicos tem alguma probabilidade de ser boa, mas prefiro apostar as minhas fichas naquilo que minha razão consegue entender, explicar e acompanhar.

sábado, 5 de setembro de 2009

A VOLTA - Parte 2

Atendendo a centenas de pedidos, leia agora mais um capítulo da trama que está abalando os nervos de todos!

Chegou em casa à noite, o marido já dormindo. Deitou-se ao seu lado e adormeceu imediatamente, com medo de que precisasse pensar no que acabara de acontecer. No dia seguinte acordou bem cedo, preparou o café e saiu depressa. Se sentia estranha. Tinha sido infiel e traído seu marido, pior ainda, traído todos os princípios que sempre defendera com tanto entusiasmo. Mas estranhamente não sentia nem uma gota de arrependimento. Ao contrário, ansiava pela próxima oportunidade. O clima no escritório estava tenso, como esperava. Os mais conservadores – ou talvez mais hipócritas – a olhavam com reprovação, outros lhe dirigiam risinhos, as amigas mais íntimas correram a saber como estava se sentindo, mas querendo de fato saber detalhes da tarde de amor. Até que, como era inevitável, cruzou com seu jovem amante. Jamais poderia imaginar que teria aquela reação, mas arrastou-o até um canto deserto da copa e o beijou. Marcaram de sair na hora do almoço.
Depois de algumas semanas de encontros diários nos intervalos ou no final do expediente, o rapaz deu sinais de que não estava mais tão empolgado. Talvez por medo de aprofundar uma relação com uma mulher casada, ou simplesmente porque perdera o encanto, como é comum à juventude. Acabaram não se vendo mais. Em poucos dias, porém, já havia outra vítima sendo caçada, depois outra, e outra. Depois começou a freqüentar bares no final do dia, e terminava sempre num quarto de motel.
No início o marido se sentiu feliz pela mulher estar seguindo a vida apesar de sua doença, por ela estar se sentindo feliz novamente. Mas em pouco tempo começou a desconfiar da causa de tanta alegria. Até que uma noite ela se descuidou demais. Chegou em casa muito tarde, e suas roupas exalavam um cheiro que não era dela. Ele sentiu um ódio profundo queimando suas vísceras, mas se virou para o outro lado e preferiu deixar a discussão para o outro dia. Mas passou a noite toda remoendo, buscando explicações, e pela manhã tinha chegado à conclusão de que não poderia condená-la. A culpa era dele. Tantos meses sem provê-la, e ainda obrigando-a a cuidar dele a todo instante, era natural que ela se sentisse carente e num momento de fraqueza fosse buscar apoio em outro ombros. Contava que sararia logo, e então tudo voltaria ao normal. Mas não voltou.
O tempo passou, ela continuava naquela vida de devassidão, ele continuava fazendo de conta que não via. Sentia-se corroído por dentro, mas fazia um esforço sobre-humano para não demonstrar. Precisava canalizar todas as suas forças para uma recuperação rápida de suas forças, pois só isso poderia salvar seu casamento. Mas é claro que ela não acreditava na sua encenação. Os sinais eram óbvios, ele já não a beijava, evitava até olhá-la de frente. As conversas eram monossilábicas e ele não se dirigia a ela nem para reclamar das constantes saídas e dos horários de chegada, cada vez mais avançados. Ela começou a sentir raiva. Porque ele não brigava, porque não a recriminava, porque não lutava por ela? Estaria satisfeito com aquela situação? Ou quem sabe não se importava? Será que não a amava mais? Já que ele parecia não dar a mínima, se entregou de vez e com mais fervor à luxúria. Agora não era só desejo de se satisfazer, mas também de machucar mais ainda o homem que a ignorava, numa tentativa de reanimá-lo à força. Mas não estava dando certo, e a situação estava ficando insustentável.
Foi quando uma pequena semente de idéia começou a brotar em sua mente. Uma semente de erva daninha, dessas que começam a crescer sorrateiras, por entre as flores, e quando se dá conta já tomou todo o jardim. Se estava se sentindo bem naquela vida, se o marido não se incomodava, porque não assumir logo. Mas não podia sustentar uma mentira para sempre, em breve seus filhos começariam a desconfiar. Era preciso acabar logo com a farsa. Mas um divórcio a essa altura seria quase um crime. Abandonar um homem doente, que dependia dela para quase tudo, que mal podia se alimentar sozinho, seria maldade demais. Era preciso esperar ele melhorar. Mas já se passavam quase seis meses, sem nenhum sinal de melhora, as mesmas dores, a mesma tosse. A mesma impotência. E o pior, sem que se chegasse a um diagnóstico. E se esse quadro se prolongasse indefinidamente? Claro, havia outra possibilidade, se a doença piorasse de vez. Ele já estava bem magro, a pele desbotada, os olhos sem vida. Talvez a doença não evoluísse, mas o corpo fosse definhando aos poucos, até não poder mais sustentar a vida. Ela se assustou, estava desejando que ele morresse? Claro que não! Ou talvez sim. Eram as duas alternativas, a cura ou a morte, ambas fora de seu alcance. Bem, na verdade, não podia curá-lo, mas podia fazer alguma coisa quanto à segunda opção. Como? Além de desejar que ele morresse, estava cogitando facilitar o processo? Que terrível! Pensamento abominável! Mas a erva abriu um pouco mais de espaço. Seria assim tão horrível abreviar o sofrimento de um homem que não parece apresentar nenhum sinal de que voltará a ter uma vida normal, e que ainda por cima carrega para o fundo do poço a vida de outras pessoas? Ou pelo menos mais uma pessoa. Mereceria ela viver pelo resto de sua vida ao lado de um semi-homem, precisando se esgueirar pelas ruas, cultivando sucessivas mentiras, para satisfazer seus desejos? Não era justo. E só havia uma saída. Ele precisava morrer.

Não perca nas próximas semanas o desfecho desta emocionante história...

sábado, 29 de agosto de 2009

... e a verdade vos libertará

Há quem achará estranho um artigo meu iniciando com uma citação bíblica. Antes que me perguntem, minhas convicções sobre religião NÃO mudaram. Acontece que essa frase exprime de forma fantástica um tema que já foi tratado por muitos filósofos: a liberdade e o conhecimento são grandezas diretamente proporcionais. Quanto mais informação, quanto mais cultura o sujeito assimila, maior e mais intensa será sua capacidade de avaliar, de escolher, de decidir. Enfim, mais liberdade ele terá.
O que me levou a essa reflexão foi uma notícia veiculada nos últimos dias, de uma professora que foi flagrada e filmada improvisando passos sensuais no palco de uma festa de funk. O vídeo vazou pela internet e a professora foi demitida. Assisti a notícia num desses programas jornalísticos-sensacionalistas de fim de tarde na TV, onde a própria protagonista era entrevistada. Os comentários dos entrevistadores e do público oscilavam entre a responsabilidade de um educador em manter uma postura exemplar e a liberdade de um profissional em fazer o que lhe der na telha quando fora do ambiente de trabalho. Quero tratar da relação do homem com o trabalho – tema que muito me interessa – mas em outra ocasião. Aqui o que importa são dois conceitos que parecem estar sendo tratados de forma bastante distorcida na nossa sociedade.
O primeiro é a liberdade. Ora, há quem diga que ela não existe de fato, que nossas escolhas são o produto inexorável do meio e dos fatos passados. Pode ser exagero, mas uma coisa é certa: ela jamais é absoluta. Estamos sempre submissos a algo ou alguém, a regras, a hierarquias, a códigos morais, até às nossas próprias limitações, medos, dúvidas e dilemas. Mas acima de tudo, a liberdade de praticar um ato está diretamente ligada às consequências dele. Não é possível querer ser livre para exercer qualquer direito sem tomar em conta a responsabilidade que virá atrelada a ele, inclusive no que toca ao reflexo de nossos atos sobre as outras pessoas. Enquanto formos seres gregários, será impossível dizer que “ninguém tem nada a ver com minha vida”, porque vivemos num sistema onde nossas ações afetam todo o nosso entorno. A professora e todos que a defenderam parecem não ter alcançado esta idéia.
O outro conceito que merece reflexão é o papel da educação na sociedade. Me parece que o dever de educar foi todo despejado sobre a escola, e tudo que está fora dela é naturalmente isento de responsabilidade. Principalmente os meios de comunicação. Quando assisti os apresentadores do programa defendendo a atitude da professora, dizendo que ela tem sim o direito de fazer o que quiser da sua vida pessoal e continuar sendo uma excelente profissional, tive a clara visão de que a imprensa tem como único compromisso o entretenimento. Dizem aquilo que o público quer ouvir, para garantir o lucro dos anunciantes. O problema é que a TV se torna o elo que fecha um círculo mais do que vicioso, um círculo pernicioso: a educação formal, tão ruim, ao mesmo tempo em que não ensina, não consegue mostrar as vantagens de se aprender; o povo passa a achar que a ignorância e a mediocridade são coisas boas e desejáveis; a TV, na ânsia de agradar a esse povo, exibe programas inférteis e que estimulam a falta de cultura e bom gosto; com uma programação tão atrativa a TV toma o lugar da escola como principal fonte de informação, ou pior do que isso, torna-se referência para os próprios educadores, e a escola piora ainda mais.
E aqui voltamos ao inicio deste texto. Enquanto a educação não for tomada como prioridade, enquanto conhecimento e cultura não se tornarem valores apreciados, jamais seremos minimamente livres para construir uma sociedade justa onde todos ganhem.

sábado, 22 de agosto de 2009

A VOLTA - Parte 1

Nerd também pode ser artista... Além de tocar violão e saber desenhar um hipopótamo muito bem (adoro hipopótamos), estou me arriscando na seara da literatura de ficção. Este é um conto dramático hemi-erótico de muito bom gosto, porque além de Nerd também sou modesto. Espero que gostem.

Começou com um acesso de tosse. Nada fora do normal numa manhã de início de maio, depois de uma noite fria que marcava o princípio de inverno. Depois vieram dores no corpo e uma dor de cabeça que insistia em ignorar os analgésicos. Diagnóstico fácil: uma gripe comum. Só que gripes comuns costumam passar em alguns dias, e aquela já entrava no terceiro mês. Não piorava, mas também não melhorava, e depois de três médicos diferentes e bateladas de exames, nenhuma resposta conclusiva. Mas a vida precisava continuar, então com esforço seguia sua rotina. Ia ao trabalho todos os dias, mas seu rendimento era o pior possível, e já ia ficando preocupado de verdade.
A esposa, também preocupada com aquele quadro no mínimo incomum era, como sempre, um exemplo de bondade e paciência, levava o café na cama, fazia chazinhos e sopinhas e nos fins de semana quase o obrigava a permanecer na cama o dia todo enquanto cuidava dos afazeres da casa.
Aqui precisamos fazer um parêntese para descrever essa mulher. Era realmente bonita, com longos cabelos negros muito bem cuidados, a pele clara e olhos esmeralda. Soube aproveitar com sabedoria o efeito dos anos, aos 38 desfilava uma beleza madura e as curvas acentuadas pelas duas gestações, devidamente moldadas por muito exercício, atraíam olhares por onde passavam. Sua integridade, porém, era à prova de qualquer dúvida. Personalidade forte, decidida, valores morais inabaláveis, tudo isso emoldurado por uma bondade sem limites. Amava incondicionalmente seus três homens: o que compartilhava sua cama e os dois que brotaram de seu ventre.
E já que falamos em cama, precisamos falar também das atividades conjugais de nosso casal. Não se pode dizer que ele fosse uma máquina sexual, mas desempenhava a contento suas obrigações, em freqüência e qualidade aceitáveis. Para ela era mais do que suficiente, já que também não era daquele tipo de espírito e corpo insaciáveis. O mais importante era que houvesse muito amor, e isso ele tinha de sobra. Estavam, então, ambos satisfeitos. Até agora.
No início ele até que tentou, mesmo sem muito ânimo, zeloso em não deixá-la carente, mas a tosse o obrigava a interromper o ato com tanta freqüência que ela bondosamente se conformava e deixava-o descansar. Depois de alguns dias de tosse, dor e frustração, o ânimo acabou de vez. Na primeira vez que não conseguiu uma ereção, depois daquele turbilhão de pensamentos desesperadores que sempre acompanham a “primeira vez”, sentiu-se até aliviado. Afinal, isso um dia iria mesmo acontecer, pelo menos ele tinha a desculpa da doença. Então relaxou e esperou que a saúde lhe voltasse. A demora na recuperação causou, porém, um efeito inesperado na mulher. Começou a sentir um certo desconforto na presença de outros homens, principalmente os mais atraentes, e rapidamente percebeu que se tratava de desejo. É claro que ela rechaçava de imediato estes sentimentos, pois sabia que eram efeitos puramente biológicos de sua abstinência e que deveriam ser tratados com o rigor da razão. Mas não podia deixar de notar que a situação estava ficando cada vez pior. Perigosamente pior.
Naquele fim-de-semana uma colega de trabalho faria aniversário, e o casal foi convidado para um churrasco no sítio da anfitriã. Ela de imediato recusou, já que o marido não estava em condições de passar um dia todo à beira da piscina, seria muito desgastante para ele e ainda mais desagradável para os demais convidados. Mas cometeu o erro de contar a ele sobre o convite. Ele ficou bastante inconformado de que a esposa perdesse a festa por sua causa, primeiro disse que faria um esforço para ir e como ela não concordasse em absoluto, insistiu para que fosse sozinha. No final ela acabou concordando, e no sábado pela manhã, depois de deixar o almoço pronto e um caminhão de recomendações, partiu para a festa.
O dia estava bastante animado, o sol forte, a comida farta, e a bebida também. Deve ter sido algum tipo de fuga, uma compensação por todos os sofrimentos dos últimos meses, mas o fato é que começou a beber mais do que o habitual. Existem vários tipos de bêbados: o que chora, o que fica valente, o chato. Nela, o álcool tinha o efeito de ampliar a alegria, ou seja, era o típico bêbado risonho. Acabou se tornando a alma da festa, brincou desinibidamente com todos, levou crianças e adultos, homens e mulheres às gargalhadas. Mas houve também um efeito secundário: aquele fogo interior que vinha sendo sistematicamente abafado ficou mais forte, ou então a força para dirimí-lo enfraqueceu. Roçava os corpos pouco vestidos dos rapazes, fazia brincadeiras provocantes, desfilava em torno da piscina com um balançado sedutor e tinha muito pouco escrúpulo em exibir suas belas formas. Mas não parou de beber. Até que o corpo não agüentou mais, e as pernas começaram a amolecer. De repente a vista embaçou, a cabeça girou, o corpo caiu e a última coisa que teve certeza de sentir foi um par de braços a amparando e segurando com força. Dali para frente as coisas aconteceram como num sonho, tudo envolto em névoas. Sensações, emoções e fantasias se confundindo, como se fossem feitas da mesma matéria. Sentiu que aqueles braços a carregavam por um caminho longo e tortuoso, sentiu-se despejar em uma superfície macia, sentiu suas roupas se desvanecerem como fumaça, e finalmente sentiu uma intensa alegria penetrando suas entranhas e se esparramando por cada centímetro de seu corpo. E então não sentiu mais nada.
Acordou horas depois, deitada numa cama estranha, num quarto estranho, com um homem estranho ao seu lado, e os dois se vestiam exatamente igual: sem nada. Olhou com mais atenção e reconheceu o rapaz do faturamento. Primeiro sentiu muita raiva. Como ele podia ter se aproveitado assim de sua bebedeira. Mas a ira foi substituída rapidamente por uma sensação nova, que ela logo reconheceu como felicidade. Sem dor, sem culpa, sem remorso. Então tocou de leve no peito nu do rapaz. Ele acordou de imediato, seus olhos se cruzaram com paixão, se beijaram, e partiram para outra sessão.

continua na próxima semana...

sábado, 15 de agosto de 2009

Uma visão de liderança

A maioria das pessoas é individualmente capaz de tomar atitudes e resolver seus próprios problemas, mas quando estamos em um grupo, acontece um fenômeno interessante, a iniciativa arrefece. Parece que cada um fica olhando para todos os outros esperando uma ação, talvez por medo de ser criticado ou ignorado, talvez por não ter certeza de que sua solução é melhor do que a do colega. De repente alguém vence essa barreira, toma a iniciativa, e todos seguem atrás. Um líder foi parido.
Uma pesquisa rápida entre livros, revistas ou artigos na área de administração mostra que um dos temas abordados com mais frequência é justamente a "Liderança". Características inatas ou aprendidas dos líderes, responsabilidades, atitudes. Mas minha pequena experiência pessoal - porque Nerd tem que ser observador - me mostra que a coisa é bem mais simples. Se tornar um líder não é muito difícil, em especial se a pessoa possuir algumas poucas habilidades. Manter -se na posição ou ser um bom líder depende exclusivamente de boa vontade e visão de coletividade.
As motivações para vencer a tal letargia grupal são variadas. Há os que conseguem ter uma visão mais clara do problema e percebem o quanto é fácil resolvê-lo, mas também há aqueles que simplesmente se importam menos com a opinião alheia e fazem o que precisa ser feito. Há os que percebem claramente a oportunidade de se tornarem líderes, e a desejam, e há os que apenas querem ajudar os pares, encontram a solução e a aplicam. A diferença entre assumir ativa e voluntariamente a liderança ou a assimilar como algo natural e inesperado pode ter relação direta com a qualidade do trabalho futuro, não por uma relação causal direta, mas por indicar qualidades e princípios importantes para o desenvolvimento da atividade de liderar.
De qualquer forma, para se manter como um bom líder são necessárias certas competências que podem ser aprendidas e cultivadas, como a capacidade de ouvir, o carisma motivador e a habilidade de gerenciar conflitos. É preciso também saber lidar com as críticas e até capitalizá-las a seu favor. Porque mesmo que o grupo não tenha sido capaz de tomar a iniciativa de solucionar o problema, não hesitará em criticar quem o faça, por discordar de suas opiniões ou até por mera e vil inveja de sua posição.
A mais importante qualidade de um bom líder é, no entanto, fruto de sua própria consciência. Não há escolas ou métodos para ensiná-la, e só quem é capaz de abrir seus horizontes e entender em profundidade o funcionamento das sociedades é capaz de alcancá-la. É o entendimento de que cada ação de cada membro do grupo deve contribuir para o crescimento coletivo, ainda que aparentemente cause prejuízo individual. Isso porque tal prejuízo é sempre temporário, a longo prazo todos acabam ganhando, assim como benefícios individuais em detrimento do coletivo sempre se acumulam e a longo prazo levam à deterioração, colapso e falência do grupo.

sábado, 8 de agosto de 2009

No princípio era o verbo...

... e o substantivo e o adjetivo e a palavra escrita era a principal forma de comunicação entre pessoas distantes. Mas a carta não só aproximava as pessoas, também as fazia exercitar a arte de escrever. Como naquela era distante a literatura era o entretenimento maior, estavam montadas as duas condições para que as habilidades de escrita se desenvolvessem: muita leitura e muito exercício. Mas veio a tecnologia, sempre ela, o telefone empurrou a carta para a aposentadoria e o mesmo a televisão fez com o livro. As pessoas foram desaprendendo a escrever.
E então a tecnologia chegou de novo, mas dessa vez algo diferente aconteceu. A carta ressuscitou como e-mail e a informação escrita reencarnou na forma de websites. As letras estavam salvas, a erudição estava de volta, os Nerds venceram.
Assim deveria ser, mas assim não foi. Alguma coisa desandou no meio do caminho. Alguém pode dizer que foi o efeito borboleta, mas nós Nerds sabemos que ele não funciona como no cinema, fazendo as coisas darem sempre errado, ele deveria ser aleatório. Mas parece que quando se trata do nível de cultura da população, não há aleatoriedade, ele sempre dá um jeito de baixar.
Talvez tenha sido a velocidade. E-mails, chats, mensageiros, sites de relacionamento, são todos muito rápidos. A informação vai e volta numa efeméride, e pede uma resposta tão instantânea que não queremos perder tempo elaborando frases complexas, procurando palavras elegantes ou criando textos solidamente argumentados.
No inicio vieram as abreviações. Algumas até se disfarçaram de jargão, uma forma dos jovens se identificarem como grupo e se diferenciarem dos retrógrados membros da geração anterior. Mas a motivação real não é outra: preguiça. A prova disso é que junto com a economia nas letras veio a economia de palavras e de frases.
Ah, mas qual o problema em escrever de forma econômica? Que mal há em ser conciso e não tão elaborado? Problema nenhum, desde que se saiba fazer essas coisas quando é necessário. Problema grande se a comunicação é sempre curta e simplória, se isso passa a ser mais do que rotina, mas a única forma de se expressar. Porque quem não sabe elaborar textos não sabe elaborar pensamentos. Raciocínio e linguagem andam sempre juntos, crescem juntos e caem no abismo de mão dadas. E se o hábito de ler – ou pelo menos de ler alguma coisa minimamente bem escrita – também vai se esvaindo, pouco resta para hipertrofiar a musculatura mental.
Não, nem tudo pode estar perdido. Somos Nerds e precisamos achar uma saída. E ela está bem diante dos seus olhos... literalmente. Você que está aí de frente para o computador, recupere o tempo perdido. Mande um e-mail para um amigo, ou mais do que isso, escreva uma verdadeira carta, exponha idéias, desenvolva argumentos. Se precisar de informação para embasar seus pensamentos, navegue por bons sites. Use a tecnologia como o que ela realmente é: uma ferramenta para facilitar sua vida, não uma muleta virtual que parece deixar tudo mais simples, mas ao final encolhe faz sua cabeça encolher mais e mais e mais e... sumiu!

sábado, 1 de agosto de 2009

Apresentação

Um Nerd costumava ser definido como um indivíduo que estuda muito, que gasta a maior parte do seu tempo buscando adquirir conhecimento, que se interessa muito por ciência e tecnologia, enfim, com inteligência e cultura acima da média (teremos outras oportunidades para discutir os conceitos de inteligência, cultura e média). E por consequência tinha baixas habilidades interpessoais e pouca vida social.
Mas hoje tudo mudou. Por alguma razão que ainda não consegui captar – e espero que este blog me ajude nisso – a sociedade moderna tem praticado uma grande valorização da mediocridade. Ou ainda menos do que isso, valoriza o que é ruim mesmo. O bom gosto, a cultura, a erudição e a inteligência são cada vez menos populares, e mostrar conhecimento é tido como sinal de arrogância. Dessa forma, pessoas comuns, que se divertem com os amigos, saem à noite, namoram, praticam esportes, vão à praia, que gostam de se vestir bem, de estar na moda, mas que além de tudo isso gostam de aprender coisas novas, de refletir antes de formar opinião, que apreciam um bom e saudável debate de idéias, coisas que deveriam ser comuns a qualquer individuo civilizado, passaram a ser vistas como estranhas: como Nerds. Podemos chamá-los de Novos Nerds, ou Neo-Nerds, pra usar um termo mais Nerd.
Vejam, não foi o conceito de Nerd que se esticou, eles continuam sendo aquela minoria que é vista pela grande massa como os “bitolados”, “CDFs”, “esquisitos” ou “metidos”. O que mudou foi o ponto de corte. Como o nível de cultura geral do povo diminuiu, agora é mais fácil se tornar Nerd, sem precisar ficar extremamente amarrado aos estudos. Aliás, “extremamente” é a palavra chave. Antes os Nerds eram os extremos, os que não conseguiam um equilíbrio entre as atividades intelectuais e as sociais. Hoje o extremo oposto, o desprezo por tudo que envolva a razão e a cultura, se tornou o “normal”, e o equilibrado é “diferente”.
E nessa mudança no ponto de corte, eu fui derrubado. De repente percebi que por mais normal que eu tente ser, por mais que ande no meio do povo, ouça música popular, veja programas populares na TV, freqüente lugares populares, em algum momento deixo escapar uma palavra não tão comum, desenvolvo um pensamento um pouco mais elaborado, solto uma informação que ninguém conhecia. Pronto, ganhei o carimbo de Nerd.
Como não consigo aceitar que eu esteja errado, como acredito que a sociedade seria muito mais justa e produtiva se todos se preocupassem um pouco mais em expandir seu conhecimento e sua capacidade de pensar, e como tenho certeza que outras pessoas pensam como eu, resolvi criar esse blog. Nele quero relatar minhas experiências: as boas, que experimento quando aprendo algo novo, e as ruins, quando sou recriminado por não aceitar a mediocridade. Quero também conhecer e trocar idéias com outros Neo-Nerds como eu, falar sobre como é ser Nerd, mas também sobre música, cinema, teatro, botânica, psicologia, química, história, política, astronomia, religião, origami, qualquer coisa, porque é disso que a gente gosta, de conversar sobre tudo. Mas minha maior motivação e tentar mostrar para os meus leitores que pensar, aprender, argumentar, enfim, ser Nerd, é uma coisa muito gostosa e divertida, e pode ser muito gratificante.
Siga comigo nessa estrada, garanto no mínimo um pouco de diversão e descontração, e de sobra a oportunidade de refletir um pouco sobre que destino queremos dar a esse nosso mundinho.
Um grande abraço, e seja bem vindo.