sábado, 24 de outubro de 2009

A Morte para um cético

Há alguns anos iniciei uma jornada de abandono das crenças religiosas rumo a um ceticismo aberto, racional e esclarecido. No meio do caminho topei um grande obstáculo intelectual: como entender e aceitar a morte numa perspectiva cética?
Quem primeiro veio em meu auxílio foi Nietzsche, me dizendo que o ateu deve aproveitar a vida ao máximo, pois não há outra a ser vivida. Bom conselho, mas insuficiente para responder a pergunta que me fazia, e que até hoje ouço daqueles que tentam me demover ou que simplesmente não entendem. Afinal, que sentido há na vida se um dia ela acaba e nada resta? Depois de alguma (não, de muita) reflexão, encontrei um caminho através da teoria da evolução e da teoria dos sistemas.
A Evolução me diz que a morte não é um fim, mas um meio, uma ferramenta da Seleção Natural. Sem a morte dos indivíduos não é possível à espécie se adaptar ao meio. Mas para aceitá-la é preciso abandonar completamente o individualismo e enxergar o ser como um elemento de um sistema maior. Aí entra a segunda teoria.
Um sistema é um conjunto de elementos que se unem com um objetivo comum. Acontece que um sistema pode ser – e na verdade quase sempre é – formado por subsistemas, e é ele próprio parte de um sistema maior. Por esta óptica fica difícil caracterizar o que é um indivíduo. Somos compostos de sistemas orgânicos, órgãos, tecidos, células, organelas, moléculas, átomos e partículas sub-atômicas, e nos agrupamos em populações, comunidades, ecossistemas, planetas, sistemas solares, galáxias e universos. Níveis de organização hierarquicamente organizados se interpenetrando. Será pura convenção considerar o corpo como o nível básico, referencial, a que se chama “indivíduo”? Talvez sim, mas que identidade há nele? Não se pode dizer que a alma é a identidade, pois sua existência já foi excluída por princípio – a resposta precisa estar na matéria. Olhando de perto, percebemos que nossa matéria é constantemente destruída e reconstruída, recebendo matéria do ambiente e a ele devolvendo, e em alguns anos de vida praticamente nenhum átomo de um indivíduo estava nele na hora de seu nascimento, então quem somos nós?
Aqui arrisco, a título de hipótese, uma definição: “indivíduo é um sistema formado por elementos que se agrupam em um dado momento, criando uma estrutura capaz de se tornar consciente, e assim se manter mesmo que os elementos sejam paulatinamente trocados por similares”. A morte seria então um momento em que a estrutura de organização destes elementos entra em colapso.
Pode-se reconhecer um punhado de falhas nesta definição, mas a mim ele parece suficiente pra solucionar meu enigma. Agora a morte não tira o sentido da vida. Ela é simplesmente um momento em que os meus átomos deixam de formar um sistema para se unirem a outros. A verdadeira vida não reside mais em mim, mas em todo o universo, e a mim ela sobreviverá. Agora eu ganho vidas passadas e vidas pós-morte, antigas prerrogativas dos crentes; minha existência passa a ter um sentido maior: de colaborar, enquanto existir, para a evolução de meu grupo e de meu mundo. Estou salvo!
Ainda há um outro elemento a discutir, algo que não é matéria, e que pode ser a chave para encontrar o sentido da existência: o conhecimento. Mas deixemos isso para outra ocasião.

sábado, 17 de outubro de 2009

A Mulher que quero

E já que estamos num momento de ufanizar as mulheres, um pouco de poesia:

A Mulher que quero é linda, não somente porque é, mas porque se sabe.
É sábia, como somente as mulheres podem ser.
É suave, e na brandura demonstra sua força.

A Mulher que quero compartilha comigo uma vida
Sem deixar de ter sua própria.
Me quer sempre por perto, mas me permite a solidão.
Me quer sempre ao seu lado, mas me permite postar-me à sua frente
Para contemplá-la, venerá-la e idolatrá-la.

A Mulher que quero é fiel e sincera.
Mas para quê um par de palavras
Se a mentira é a única traição?

A Mulher que quero não abre mão dos benefícios de ser Mulher.
A ela eu posso servir,
Não porque necessita, mas porque me permitiu.
A ela eu sempre protejo, ou ao menos assim penso
Enquanto sou eu o protegido.

A Mulher que quero me contesta, me desafia, me estimula,
Não aceita calada o que não está bem
E nem o que está, já que tudo poderá estar melhor.

A Mulher que quero não se arrepende
Pois isso só fazem os espíritos pobres.
Não abandona seu passado
Porque o passado é a essência na qual somos moldados.

A Mulher que quero basta ser sempre, toda, somente
Mulher.

sábado, 3 de outubro de 2009

Da costela de Eva

Dia desses recebi por e-mail a seguinte piada:
O que disse Deus depois de criar o homem? Tenho que ser capaz de fazer coisa melhor.
E o que disse Deus depois de criar a mulher? A prática traz a perfeição.

Variações da anedota mais antiga, onde Deus fez primeiro o rascunho e depois a obra prima. Adorei e concordo quase totalmente. A mim não resta dúvida de que as mulheres são superiores aos homens em qualquer quesito: mais belas, mais sábias, mais eficientes, mais requintadas, mais complexas.
A única falha no argumento humorístico é que a fábula bíblica não coaduna com a observação científica. Na verdade o homem - ou para ser mais exato, o macho - deriva da fêmea, e não o contrário. No início de nossa vida fetal, somos todos anatomicamente femininos. Posteriormente, naqueles geneticamente marcados pelo escudo de marte, uma descarga de testosterona transforma os órgãos femininos em masculinos. E como a embriogênese recria a filogênese, espera-se que os seres primitivos sejam todos fêmeas. E assim é.
A história de vida no planeta se iniciou com os organismos assexuados. Neles um indivíduo recolhe material do ambiente para construir outro indivíduo semelhante, e a isso se dá o nome de reprodução. Eras depois, com o objetivo de aumentar a variabilidade genética, o que traria grande vantagem evolutiva, surgiram os organismos sexuados hermafroditas, que dispunham de duas estruturas: uma, dita feminina, fazia exatamente o que já era feito pelos seus ancestrais; outra, masculina, tinha a única função de expelir algum meio que carregasse o código genético para ser usado pela parte feminina de outro indivíduo na construção do novo ser. Mas repare que as denominações de masculino e feminino foram dadas muito tempo depois, por uma espécie que se arvorou o direito de decidir que nome teriam as coisas. Numa análise fria, o que a parte masculina faz não é de fato reprodução. Ela não participa da construção de outro indivíduo, somente fornece parte da informação necessária.
O que dizer então da geração seguinte, onde as funções de “macho” e “fêmea” passaram a ser desempenhadas por sujeitos distintos? O que ocorreu aqui foi que Mãe Natureza achou por bem criar um indivíduo incapaz de se reproduzir; um ser vivo pela metade – já que a reprodução é exatamente o que define a vida. Dizemos ter um aparelho reprodutor masculino, porque assim foi dito há séculos, quando a ciência era feita somente por machos, ou porque não encontramos nomenclatura melhor para nossos penduricalhos. Mas na verdade não temos órgão reprodutor nenhum, apenas mecanismos que expelem DNA. É da fêmea o papel de gerar, de criar, de construir.
É claro que com o tempo a evolução – e mais tarde a cultura - encontraram para nós funções mais úteis, mas que nada dizem sobre nossa origem.
Não somos rascunhos que foram posteriormente melhorados. Elas já são a obra pronta, completa e original, nós somos somente cópias, e quando fomos tirados o tonner da máquina estava acabando.