Voltando das férias, chego todo contente e animado no trabalho. A cabeça ainda vagando pelas lembranças do mar e do sol, mas cheio de disposição para recomeçar. No portão da empresa me avisam: "Ah doutor, não tem ninguém aqui hoje, é feriado, aniversário da cidade". Não sabia, já que moro em outro município, decepção total. Mas a surpresa me fez refletir sobre essa coisa de feriados. Qual a razão de se excluir um dia (na verdade vários) do calendário produtivo?
Feriados existem e existiram em todas as culturas, já que cada uma quer manter vivos na memória seus principais eventos cívicos ou religiosos. E é para isso que eles existem: para que as pessoas possam sejam dispensadas dos seus afazeres diários e se dediquem a festejar ou comemorar de alguma forma um fato ou pessoa importante. Feriados religiosos deveriam ser dias de oração, feriados cívicos deveriam ser dia de festa, mas não é isso o que se vê.
Passeando pela cidade no dia que se comemora sua fundação, não vi desfile e fanfarra, não vi festa no parque com piscina de bolinhas e algodão-doce, não vi escolas e prédios públicos enfeitados. Só vi ruas vazias e lojas fechadas. As pessoas simplesmente ficaram em casa, ou esticaram o passeio de fim-de-semana, já que é segunda-feira. As crianças não deixaram de ir à escola para participar de atividades que as ensinasse sobre a história de seu município e de seus fundadores, acredito até que nem saibam alguma coisa sobre isso. Faltaram à escola para fazer... nada.
Então qual a razão da sociedade continuar desperdiçando seu tempo e capital em dias mortos e sem significado? Arrisco um palpite: deve ter muito a ver com uma cultura de trabalho, e da relação do homem com ele, totalmente equivocada. Se Marx disse que o trabalho é a essência do homem, o capitalismo prega que o trabalho é uma mercadoria que o homem vende ao seu empregador. Ainda que eu não seja socialista militante, a primeira definição me é mais simpática. Não foi, porém, a escolhida para dirigir nossas relações profissionais. Na nossa sociedade, trabalho e vida pessoal são coisas absolutamente distintas e inconfundíveis, e é por isso que estamos sempre tentando encolher o tempo de trabalho, porque enquanto trabalhamos não estamos vivendo. Mas é por isso também que nos estafamos quando precisamos trabalhar além do esperado, e exigimos receber remuneração diferencidade por isso. Tratamos como "invasão" e nos irritamos com um telefonema do trabalho durante as férias, não porque toma nosso tempo, mas simplesmente porque "agora não é hora e não quero pensar nisso".
O trabalho é, acima de tudo, nossa contribuição para a sociedade, a base onde se constrói essa grande simbiose chamada humanidade. Não deve e não pode ser dissociado que nenhum outro aspecto da nossa vida, porque no momento em que isso acontece, deixamos de fazer parte da coletividade. Se o capitalismo foi o responsável por criar essa visão mercantilista do trabalho, acredito que ele mesmo tenha a ferramenta para revertê-la: a tecnologia.
Os novos meios de comunicação e de conexão são o caminho para permitir que o homem seja produtivo mesmo enquanto descansa e se diverte, sem prejudicar um ou outro. Aí então poderemos aproveitar um feriado para comemorar nossa cultura coletiva, e não para simplesmente fugir do serviço.
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Só posso dizer que é muita sorte voltar em feriado...
ResponderExcluirMas tenho que concordar com você que os feriados são meio inúteis mesmo, pois quase ninguém fica celebrando o motivo do "feriado".
Mas discordo sobre a "invasão nas férias"
Férias por definição é um momento de descanso de uma atividade que fazemos continuamente. E não queremos ser interrompidos por aquilo no meio do descanso.
Os meios de comunicação já nos impõe um ritmo frenético de vida, com pouco tempo livre de descanso, ócio criativo. Eu não acho que ser acordada de madrugada por besteira ou receber 10 ligações quando você não pode atender em 30 minutos, por causa da ansiedade do outro seja natural ou "um caminho de ser produtivo sem prejudicar um ou outro..."
Eu particularmente não gosto de feriados, preferia meus dias em férias maiores mesmo. Sempre tenho trabalho dobrado depois de um desses prolongados...
quando estava no Canadá percebi que nós brasileiros gostando dos feriados pois é apenas mais um dia de folga, um dia pra não fazer nada, e muito menos comemorar o motivo de ser feriado. As festas de ruas, os lembretes do porque ser feriado eram vividos e era impossível não retornar a história do Canadá e entende-los melhor. Eu entendo o porque de nao fazer nada num país que mais nos tira do que nos dá. Comemorar o que????
ResponderExcluirBeijos e adorei o texto.