- Ô Pedro, você viu minha cueca verde, aquela box?
- Aquela que você ganhou da Belinha?
- Melhor não falar da Belinha.
- Poxa, Paulo, achei que você já tinha superado essa história.
- Superei, mas não esqueci. Aliás, vai demorar pra eu esquecer que meu irmão gêmeo se fez passar por mim pra pegar minha namorada.
- Ah, ela nem era sua namorada.
- Mas poderia vir a ser.
- E tem mais, a gente já se passou um pelo outro tantas vezes, não sei porque a crise agora.
- Passamos um pelo outro de comum acordo.
- Nem sempre. Quantas vezes eu te tirei de fria fingindo ser você, e quantas vezes você fez a mesma coisa? E se você relaxar e pensar racionalmente, com a Belinha foi exatamente isso que eu fiz, afinal você é que tinha marcado encontro com ela e furou. Aí calhou de eu estar por perto e resolvi limpar sua barra. O azar foi que ela descobriu depois.
- É, pode ser. Melhor esquecer mesmo, isso é passado. Mas ainda quero saber da minha cueca.
- Você usou ontem, deve estar pra lavar.
- Não usei não, aliás faz bastante tempo que não uso.
- Hmm, então não sei, devo ter confundido.
- Confundido o que? Ei, pera aí, você usou minha cueca?
- Pode ser que eu tenha usado, mas achei que era você.
- Ah, não me venha com essa agora. Uma coisa é você fazer os outros pensarem que você sou eu, uma coisa é você fazer minha namorada...
- Quem?
- Tá, minha provável-futura-namorada pensar que você sou eu, uma coisa é você fazer a mamãe pensar que você sou eu...
- Haha, aquela foi engraçada, e ela que sempre diz que é a única pessoa no mundo que consegue diferenciar nós dois.
- Huahuahua, verdade, foi engraçado. Mas enfim, esperar que eu acredite que você me confunde com você mesmo é demais!
- Porque? Afinal, será que nós somos mesmo duas pessoas?
- Tá me zuando?
- Claro que não. Olha só, o que caracteriza um indivíduo, o que faz dele um ser único? É exatamente a forma única como o conjunto de genes da população se arranja nele. São tantos genes, em tantos loci cromossômicos, tantas combinações diferentes que fica quase impossível a mesma combinação acontecer duas vezes, ainda mais considerando as eventuais mutações, translocações, crossing-overs, etc. É justamente essa variedade que serve de material para a Seleção Natural, graças a ela pode existir evolução. Ora, se a natureza não admite que duas pessoas tenham o mesmo código genético, então o que são os gêmeos senão UMA SÓ PESSOA?
- É, tá me zuando.
- Não tô não. Pensa bem, em que momento surge um novo indivíduo? Esqueça os conceitos morais, religiosos, filosóficos ou outros que os valham e pense na biologia pura. Se o que caracteriza o indivíduo é o código genético, então ele começa a existir no momento em que aparece a primeira célula com um código genético único, o zigoto. Essa célula pode se dividir depois em centenas, milhões, bilhões de outras células, mas todas vão carregar a mesma combinação de genes, e isso dá a elas a propriedade de pertencerem ao mesmo indivíduo. E como a gente fica nessa história? Bom, um dia nós dois fomos um único zigoto, um único indivíduo – único porque era um só e único porque era diferente de todos os outros – que depois de dividiu como qualquer outro zigoto se divide. Aí por uma falha de processo a divisão foi longe demais e as duas partes se desgrudaram, mas já vimos que os processos de divisão celular não importam na identificação de um ser, o que vale é a informação que as células filhas carregam.
- Tá bom, vou entrar na sua brincadeira. Então o que você me fala da reprodução assexuada? Em uma colônia de bactérias ou um viveiro cheio de plantas propagadas por estaquia, cada bactéria e cada planta têm o mesmo código genético. Ou sua teoria só vale para animais, ou eu não sei o que esses conjuntos são.
- Superorganismos, como as abelhas de Tautz. Ou não, talvez meu argumento só funcione mesmo com espécies sexuadas. Mas ainda vale, porque é de nós que estamos falando, e nós somos sexuados - apesar de você estar meio devagar ultimamente.
- Quer fazer o favor de não tripudiar da minha má fase?
- Ok, continuando. O fato é que se eu coloco uma luva, a luva está em mim. Não importa se está na mão esquerda ou na direita, de qualquer jeito sou EU que estou vestindo. Ainda que somente as células de uma mão sejam protegidas com as respectivas moléculas de DNA dentro delas, a informação genética da outra mão e de cada uma de todas as outras partes do corpo estará enluvada. Analogamente, não faz diferença se o Pedro ou o Paulo vestem uma cueca, é o mesmo arranjo genético que está sendo beneficiado.
- Como você viaja! Era mais fácil ter pedido a cueca, eu emprestava na boa.
- A Belinha também?
- Não enche.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
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acho que todo mundo que convive com gêmeos já pode ter sido enganado. Confundir os dois é básico...
ResponderExcluirÉ. Essa história do zigoto foi boa... putz.
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