Nerd também pode ser artista... Além de tocar violão e saber desenhar um hipopótamo muito bem (adoro hipopótamos), estou me arriscando na seara da literatura de ficção. Este é um conto dramático hemi-erótico de muito bom gosto, porque além de Nerd também sou modesto. Espero que gostem.
Começou com um acesso de tosse. Nada fora do normal numa manhã de início de maio, depois de uma noite fria que marcava o princípio de inverno. Depois vieram dores no corpo e uma dor de cabeça que insistia em ignorar os analgésicos. Diagnóstico fácil: uma gripe comum. Só que gripes comuns costumam passar em alguns dias, e aquela já entrava no terceiro mês. Não piorava, mas também não melhorava, e depois de três médicos diferentes e bateladas de exames, nenhuma resposta conclusiva. Mas a vida precisava continuar, então com esforço seguia sua rotina. Ia ao trabalho todos os dias, mas seu rendimento era o pior possível, e já ia ficando preocupado de verdade.
A esposa, também preocupada com aquele quadro no mínimo incomum era, como sempre, um exemplo de bondade e paciência, levava o café na cama, fazia chazinhos e sopinhas e nos fins de semana quase o obrigava a permanecer na cama o dia todo enquanto cuidava dos afazeres da casa.
Aqui precisamos fazer um parêntese para descrever essa mulher. Era realmente bonita, com longos cabelos negros muito bem cuidados, a pele clara e olhos esmeralda. Soube aproveitar com sabedoria o efeito dos anos, aos 38 desfilava uma beleza madura e as curvas acentuadas pelas duas gestações, devidamente moldadas por muito exercício, atraíam olhares por onde passavam. Sua integridade, porém, era à prova de qualquer dúvida. Personalidade forte, decidida, valores morais inabaláveis, tudo isso emoldurado por uma bondade sem limites. Amava incondicionalmente seus três homens: o que compartilhava sua cama e os dois que brotaram de seu ventre.
E já que falamos em cama, precisamos falar também das atividades conjugais de nosso casal. Não se pode dizer que ele fosse uma máquina sexual, mas desempenhava a contento suas obrigações, em freqüência e qualidade aceitáveis. Para ela era mais do que suficiente, já que também não era daquele tipo de espírito e corpo insaciáveis. O mais importante era que houvesse muito amor, e isso ele tinha de sobra. Estavam, então, ambos satisfeitos. Até agora.
No início ele até que tentou, mesmo sem muito ânimo, zeloso em não deixá-la carente, mas a tosse o obrigava a interromper o ato com tanta freqüência que ela bondosamente se conformava e deixava-o descansar. Depois de alguns dias de tosse, dor e frustração, o ânimo acabou de vez. Na primeira vez que não conseguiu uma ereção, depois daquele turbilhão de pensamentos desesperadores que sempre acompanham a “primeira vez”, sentiu-se até aliviado. Afinal, isso um dia iria mesmo acontecer, pelo menos ele tinha a desculpa da doença. Então relaxou e esperou que a saúde lhe voltasse. A demora na recuperação causou, porém, um efeito inesperado na mulher. Começou a sentir um certo desconforto na presença de outros homens, principalmente os mais atraentes, e rapidamente percebeu que se tratava de desejo. É claro que ela rechaçava de imediato estes sentimentos, pois sabia que eram efeitos puramente biológicos de sua abstinência e que deveriam ser tratados com o rigor da razão. Mas não podia deixar de notar que a situação estava ficando cada vez pior. Perigosamente pior.
Naquele fim-de-semana uma colega de trabalho faria aniversário, e o casal foi convidado para um churrasco no sítio da anfitriã. Ela de imediato recusou, já que o marido não estava em condições de passar um dia todo à beira da piscina, seria muito desgastante para ele e ainda mais desagradável para os demais convidados. Mas cometeu o erro de contar a ele sobre o convite. Ele ficou bastante inconformado de que a esposa perdesse a festa por sua causa, primeiro disse que faria um esforço para ir e como ela não concordasse em absoluto, insistiu para que fosse sozinha. No final ela acabou concordando, e no sábado pela manhã, depois de deixar o almoço pronto e um caminhão de recomendações, partiu para a festa.
O dia estava bastante animado, o sol forte, a comida farta, e a bebida também. Deve ter sido algum tipo de fuga, uma compensação por todos os sofrimentos dos últimos meses, mas o fato é que começou a beber mais do que o habitual. Existem vários tipos de bêbados: o que chora, o que fica valente, o chato. Nela, o álcool tinha o efeito de ampliar a alegria, ou seja, era o típico bêbado risonho. Acabou se tornando a alma da festa, brincou desinibidamente com todos, levou crianças e adultos, homens e mulheres às gargalhadas. Mas houve também um efeito secundário: aquele fogo interior que vinha sendo sistematicamente abafado ficou mais forte, ou então a força para dirimí-lo enfraqueceu. Roçava os corpos pouco vestidos dos rapazes, fazia brincadeiras provocantes, desfilava em torno da piscina com um balançado sedutor e tinha muito pouco escrúpulo em exibir suas belas formas. Mas não parou de beber. Até que o corpo não agüentou mais, e as pernas começaram a amolecer. De repente a vista embaçou, a cabeça girou, o corpo caiu e a última coisa que teve certeza de sentir foi um par de braços a amparando e segurando com força. Dali para frente as coisas aconteceram como num sonho, tudo envolto em névoas. Sensações, emoções e fantasias se confundindo, como se fossem feitas da mesma matéria. Sentiu que aqueles braços a carregavam por um caminho longo e tortuoso, sentiu-se despejar em uma superfície macia, sentiu suas roupas se desvanecerem como fumaça, e finalmente sentiu uma intensa alegria penetrando suas entranhas e se esparramando por cada centímetro de seu corpo. E então não sentiu mais nada.
Acordou horas depois, deitada numa cama estranha, num quarto estranho, com um homem estranho ao seu lado, e os dois se vestiam exatamente igual: sem nada. Olhou com mais atenção e reconheceu o rapaz do faturamento. Primeiro sentiu muita raiva. Como ele podia ter se aproveitado assim de sua bebedeira. Mas a ira foi substituída rapidamente por uma sensação nova, que ela logo reconheceu como felicidade. Sem dor, sem culpa, sem remorso. Então tocou de leve no peito nu do rapaz. Ele acordou de imediato, seus olhos se cruzaram com paixão, se beijaram, e partiram para outra sessão.
continua na próxima semana...
sábado, 22 de agosto de 2009
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Ei, nerd literato, cadê a segunda parte? Estou na expectativa... Beijocas.
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